caminha, caminhando, poetando, vivendo como Deus me permite viver. É assim que vou. É desse jeito que sou. E aqui vão: notícias mensagens, poesias, crônicas, artigos, enfim, tudo que gosto e sou, parte dos caminhos que este caminhante procura seguir. Apenas isto!
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Ensaios sobre a ética
Quando fiz minha Pós Graduação em Wiesbaden, Alemanha, um amigo brasileiro, neurocirurgião, que se especializava na vizinha Mainz me contou que seu mestre resolveu fazer um jantar para colegas da especialidade. Sua intenção: aproximá-lo da nata da neurocirurgia alemã, uma das melhores do mundo. Uma honra para meu amigo. Trinta dias se passaram e não se tocou mais no assunto. Na Alemanha a discrição é uma virtude. Assim, nem ousou perguntar a respeito. Já havia esquecido quando o Correio trouxe o convite. O jantar seria dali a 3 semanas, um Sábado, na mesma época que uns parentes do Brasil vinham visita-lo. Quando chegasse a hora daria um jeito de atender os dois compromissos.
Mas brasileiro é brasileiro e Sábado, na Alemanha, é igual a todo o mundo. Dia de sair, jantar fora, ir a um bar com amigos, celebrar a vida. O dia chegou e ele esqueceu. Melhor dizendo, acompanhou os parentes a Frankfurt, abusou um pouco, passou da hora e o jantar dançou.
Na segunda-feira, o mestre cobrou a desfeita. Como se faz no Brasil, mentiu dizendo não ter sido avisado da data. Mesmo que o mestre insistisse no envio do convite pelo correio, continuou mentindo: nada recebera.
Dias depois um policial bateu à sua porta com uma convocação para uma audiência. Motivo: uma queixa contra o Correio. O inquérito apurava se o carteiro – que afirmava ter entregado a correspondência – estava ou não mentindo. Mentir, na Alemanha, como em qualquer lugar do mundo, exceto o Brasil, é caso grave. Gravíssimo se vinda de um agente público. Envergonhado, foi à delegacia e contou a verdade. A desculpa: no Brasil isto é normal. Levou uma descompostura e uma ameaça de processo caso reincidisse.
Agora pasmem. Se pego por mentir, um processo seria aberto para punir o carteiro com a perda do emprego. Mais, o juiz estabeleceria uma indenização por danos morais, paga pelo Estado às vítimas. Afinal, Correio é um serviço público e deve cumprir suas obrigações com a sociedade. Ademais, lá, mentir é antiético.
Aqui, se bobear, meu amigo e o mestre seriam processados por danos à imagem dos Correios. O agente público, impune, seria digno de pena; a verdade considerada coisa de encrenqueiro e a mentira um artifício da oposição e da imprensa golpista. É só ver o exemplo de alguns funcionários públicos e dos nossos políticos em Brasília. Mentir aqui é a praxe. Dizer a verdade é ser inconveniente. Tudo acabaria em pizza!
Luiz Eduardo Caminha
Ratones, Florianópolis, 18.08.2009
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Ensaios sobre a Ética
Segue artigo que tive o prazer de ver publicado no Jornal Folha de Blumenau no endereço:
http://www.folhadeblumenau.com.br/site/noticia.php?noticia=7295&url=noticia.php?noticia=7295
Consciência e Ética
A desobediência de Adão e Eva impõe uma reflexão sobre o momento atual. O Criador entrega ao homem a criação e exige-lhe uma recíproca ética: “jamais comer do fruto da árvore do bem e do mal”. A serpente seduz a mulher: se comerem serão iguais a Deus. A proposta traz, no bojo, o dualismo maniqueísta: obedecer a Deus, o bem ou ceder ao mal, a serpente. Eva cede. Come o fruto, convence Adão e, daí, tomam consciência de que estão nus.
Tapam-se com folhas de parreira e se escondem. O questionamento do Criador é óbvio: não está em jogo a transgressão, mas a consciente liberdade em transgredir. Quem lhes revelou que estavam nus? Adão culpa Eva, que culpa a serpente. Resultado: A serpente condenada a rastejar o resto de seus dias; Adão e Eva expulsos do Paraíso e condenados a trabalhar.
Criado à semelhança do Criador o homem nasce com um sinal divino, a consciência, um sininho que o alerta quando algo é abominável. Alimentada de conceitos que apontam o certo e o errado permite ao homem diferenciar o bem do mal.
O livre arbítrio consente que escolha. Quando vem a ocasião, o sininho toca. Ele recua ou faz que não “ouve”. Se isto ocorre, o sininho cresce. Badala forte. O homem deixa-o de lado. E faz. E erra. E se vê nu. Vestir as folhas da parreira, como se fosse um camaleão, esconder-se, são outros quinhentos. E aí está o problema.
Cônscio do erro espera as consequências. Se lhe são favoráveis ou nem são notadas, se sente poderoso, um deus. Cometer outros deslizes é questão de tempo, “boca de siri”, paciência, oportunidade e... falta de vergonha na cara - Sêneca diria assim?
Do erro, o homem vai ao crime. Encarcera a consciência numa redoma, e silencia o sininho. Cria novos valores, novos paradigmas comportamentais. O mundo é dos espertos, dos que se locupletam. Adere a uma nova raça corrupta, sem ética, onipotente.
Quando flagrado nos desvios, usa a camaleônica máscara da hipocrisia: “não sabia que era errado” ou, pior, “não sabia nada disto”. Sabia, sim. E muito!!! O que lhe faltou foi probidade, ética e, sobretudo, a consciência de executar o bem. Faltou o sininho. Não é o que vem acontecendo na política nacional?
Deus foi inflexível com Adão, Eva e a serpente. E, como a voz do povo é a voz de Deus, resta-me a esperança em crer que o povo expulsará de vez, pelo voto, estas anomalias humanas do Paraíso Planaltino.
Luiz Eduardo Caminha
Floripa, Ratones, 11.08.2009
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Crônicas dum mané
Aí vai mais uma crônica dum mané! Divirtam-se! Tem numerozinho com tradução lá no final.
Tás querendo u que, sô istepô!
Por Luiz Eduardo Caminha
Dia dessis recebi um i-meiu du mô amigo Jorge Müller, lá di Joinvilli, mas qui mora im Blumenau a uma carrada di tempo. Óia só o que qui eli dissi:
2009/6/22 Jorge Alberto Müller
Confrades bom dia! Amanhã pela manhã irei comprar os Mugilideos da ordem Perciformes e nome científico denominado de Chelon labrosus em Itajai. Tb comprarei algumas ovas q farei da seguinte forma: .....+ 1 l. de.....e + 4/3 de ... e uma pitada de.....diluido com conhaque fran......em 1/2 porção de....e levado ao forno 19 min.......então e servir com...... até lá!!
As Chelon labrosus segundo informações nesta quinzena estão mais saborosas pois as que não foram pegas ainda, já nadaram bastante e portanto estão mais magras e menos estressadas fazendo que sua carne fique mais suave e c/ baixíssimo índice de colesterol abaixo do prejudicial as artérias. Portanto viva as Chelon ..na areia importada da praia do Pinho(segundo o presidente Fred!). JORGE
Oi, ió, ió! U que qui é issu, guri?!
Foi assim co fiquei quandu li essi negócio. Aí ó. Non contei tempu. Respondi na horinha, puto dus córnus. Mas fiquei curiosu di sabê u que caquilo quiria dizê!
Qui nomi mais istrombóticu (1) é essi? Que qui essi alemão ta inventandu? comprar os Mugilideos da ordem Perciformes, um tar di Chelon labrosus? Tas querendu u que, sô istepô?! Nunca vi um nomi dessis na minha vida!
Devi sê di cumê, né? Purque u Jorgi ta falandu qui vai faze essi tróçu (2) lá nu Terça a todu vapô, nu Clubi Bela Vista! Devi di sê cumida!!!
Lá vem essis alemão digraçadu cum essis nomi du cão di novu. Chelon? Pareci é nomi di bucica (3). Ôtro dia foi u Braz, cum aqueli negóciu di dizê qui bacalhau não era bacalhau. Era um tar de Códi non sei u quê. Cód Gabus Morhua, foi u nomi qui eli invento pru bacalhau. Até hoji não inguli essi tróçu. To cá ispinha atravessada nu gogó(4)!
Agora vem u mô amigu Jorgi cum essi Chelon não sei das quanta. Assim não dá né!! Tas querendo me arromba, ô? O tás é querendu mi gozá, Jorge?
Mas qui devi di sê cumida, issu devi. I cumida du mar, purque u Jorgi tomem diz qui vai comprá im Itajaí! Muié da vida é qui não devi di sê. Essas tomém si comi, mas di outro jeitu, é craro! Mas issu não devi di sê! Lá nu Bela Vista, elis não deixo fazê issu! Nem cá vaca tussa!
I tem mais. Vai sê nu istamitichi dus terçaferino. Intão é cumida. Tem di sê!
Ah! Qués sabe u que qui é essi tar di istamitichi, né? Ô isplicu prumódintendê(5)! Istamitichi é u nomi qui us alemão dão pra uma roda di amigus qui si reuni todu u santu dia ou uma veis pur semana, só pra jogá conversa fora, tomá uns ferru(6), cume uma cumida ou jogá uma bolinha, um dominózinhu, uma botchinha ou ôtra coza qualqué(7). U importanti dessa rodinha é mermu tomá uns ferru. Bia gelada pra maioria. É paricidinhu cu’as nossa patota, as nossa rodinha.
Pois é! U Terça a todu vapô é um istamitichi qui si reuni toda as terça fera pra faze issu: toma uns ferru i cume uma cumidinha. Pur issu co achu qui essi tar di Chelon é mermu cumida. I ôtra! U Jorgi é um cuzinhêru dos bom. Faz rabada, caranguejada i tudu mais. Nunca isqueçu a rabada du Jorgi. Ê! Pó pará pur aí. Não é u qui voceis tão pensandu. É rabada di boi, mermu!!! Óia, a rabada du Jorgi é di lambe us beiçu!!! Agora, co nunca vi fala qui essi tar di Chelon é coza di cume, issu ô nunca vi.
Bem, u jeitu era i vê si tinha arguma coza nu pai dus burru, né?!
Piscurei(8) nu Orélio! Nada! Nu Micaélis! Nada! Vai vê, pensei cá cus môs botão, é nomi francês. Ô sei lá??? Arriscá não custa! Já qui a vaca tá indu pru breju mermu. Morra a Marta, morra farta! Vamu lá! Fui pru Michelin. Nada tomém! Nem nu Gugle incontrei arguma isplicação. Ô mo Santu Antonho! Ô, minha Nossa Sinhora da Lapa! Mi dá uma luz pru modo ô incontrá u que qui é issu. To já ficandu doidu di isquentá a mufa(9) di tantu piscurá. Essi istepô du Jorgi. Mi faze ficá incasquitadu(10) dessi jeito. Tu me pagas, sô lambisgóia(11). Sô ti incontro doti(12) di relho(13), só pra tu aprende.
Foi daí qui começaru a chegá as resposta pro i-maiu du Jorgi. Gente curiosa, querendo sabe qui merda(14) era aquilu. Genti querendu isplicação ou botandu mais lenha na fuguêra. Tava já virandu gozação!Tomém Um nomi dessis, só pudia dá falatório.
Chuveu resposta ao i-meiu du Jorgi, nu mô computadô.
I foi aí co discubri tudinhu! Qués sabê u que qui issu qué dize? Ô não dissi qui era coisa di cumê?? Mas voceis não vão acreditá! Só prus córnus du diabu! Começa qui essi tar di Chelon dus cambau a quatro(15) não é essi. É essa. É u nomi científicu das nossa tainha. Pódi issu? Não vi issu nem nu científicu, nem nu ginásio, nem na faucudade(16), nem im lugá ninhum aqui na isla. Im Flonóplis ninguém sabi dissu. Tainha é tainha, ô mané!!! Nem vem qui non tem ô! Nem mi istróva!(17) Tás tolo é? Pareci qui non reza(18), Ahn! Ahn! Ahn! Sai daí ô. Não mi intisica(19) não, sô intiquento.(20)
Até a Gracinha, aquela minha prima, filha da Tia Quita, qui é professora i criada nu Riberão, nu meiu dus pescado, non sabe disso. Duvideodó(21)! A manezada aqui nunca ôviu falá dissu. Nem u dotô Galvão e a a muié deli, a Cida, qui são formado em manezês na faucudade do Pântano do Sul sabiam dissu, sô amarelo(22).
Agora já si viu? Chamá a nossa tainha di Chelon sei lá du que!!! Só coza di alemão, mermo!!!
Daí, môs amigo, dispôs di sabê, fui obrigadu a mi alembrá quantas i quantas vezis ô cumi dessas bichinha. Cum ova, sem ova, iscalada, rechiada, frita im posta cum pirão di feijão, di tudu qui é jeitu! Na casa du Tiu Ernani i da Tia Zilma! Du tio Elson i da tia Dalva! No Brunu i na Iracema! Na tia Idalina i nu tio Geraldinu! Na casa du Ramón i da Terezinha, lá nu Reberão! Na casa dus môs irmão, u Bitinhu, a Anamaria! Nus môs quiridu cunhadu u Nei i a Malba. Na casa du seu Nilu Machadu, lá im São Miguel. Na casa du Bicudo, du seu Silviu Nocetti, lá na Praia di Fora. Mô Deus du céu! Cumi muitu dessas bichinha, im tudu qui é lugá i sempri nós chamava elas di tainha. Ahn! Ahn! Ahn! Chelon! Só pra ti mermo, alemão. Agora mi diz aqui: alemão di Joinvilli conheci di tainha? Só pudia dá nissu!
Óia! Ainda na semana passada cumemo uma, eu i a Seluta aqui em casa, cuns amigu lá di Brusqui. Rechiadinha com farofa di camarão, ova di tainha, muela, fígado i coração. Di tainha né o sô tanso!(23) . é purque tu non devi nem di sabê qui tainha tem muela, né? Qui nem galinha!.
Óia, nóis só non cumia muita tainha lá na casa da mãe i du pai purque u mô pai não suportava pexe.
Era o friu chegá, as vezis antes mermu du invernu i lá vinha e épuca das tainha. Vinham di monte. Us lançu(24) di rede, traziam pras praias uma, duas, cincu, à vezis quinzi, vinti tonelada da bichinha. Uma muntuêra(25). Era tainha a dá cum pau!(26). Ô coza linda di si vê, um lançu di tainha. I tem ôtra! Todu mundu qui ajuda a puxá a redi leva umas tainha pra casa. Duas, três, meia duza! Dependi da quantidade qui vem na redi. Tá certo! U ajudanti tem qui sê digêro(27). Vai até na pancada da maré(28), cum água nas canela, gruda na corda i vem aquela bicha(29) di ajudante puxandu... i puxandu..., até chegá incima da praia. Dai, quando si chega lá incima, tem qui saí na puada(30) i corrê até a pancada da maré di novu. I dá-lhe a puxá.
Óia genti! Voceis já viru água fervê, né?! Pôs quando a redi tá chegandu pertu, u mar ferve qui nem uma chalêra! Di tantu peixe! Daí, quandu u peixe tá tudo num monte na praia, começa a divisão. Tudu im montinhus. É lógicu qui us monti maió são dus pescadô, us camarada e du donu da redi i du barco qui foi ponhá a redi. Mas todu mundu leva tainha pra casa. É uma festa.
Mas vamu pará pur aqui quessas lembrança, purque mi dá munta tristeza. Minha mãe i mô pai, quanu a genti era piquenu, gostavam di nus leva pra vê essis lançu. Lá im Canasviera. Até na Lagoa, nu tempu qui ainda não tinha a avenida das rendêra, qui era tudu praia , tinha lançu di tainha. Di lembrá dus dois mi enchi us óiu di lágrima. Di saudade! Tão nu céu, ô sei! Mas a saudade aperta u coração da genti!
Posé(31), môs amigu! Intão tá!
Chelon labrosus é u nomi i sobrinomi das tainha. I vai tê festa nu Bela Vista. Vai te tainhada. Di todu tipu. Purque cuzinhá u Jorge sabi! Valeu Jorgi! Mas da próxima, tu vê si não mi inrola cum essis nomi distrambelhadu(32), vissi? Ô tu tás é querendu dá uma di bentivi di isgreja?(33)
Luiz Eduardo Caminha,
Ratones, Floripa, 23.06.2009
Prumódintendê
1. istrombóticu – estrambótico, esquisito.
2. tróçu – coisa
3. bucica – cadela guaipeca, vira-lata.
4. gogó – garganta
5. prumódintendê – de formas a entender
6. ferru – ferro, bebida alcoólica, cachaça.
7. quarqué – qualquer.
8. Piscurei – procurei
9. mufa – cabeça
10. incasquitadu – cismado
11. lambisgóia – metido
12. doti – te dou, dou-te;
13. doti di relho – dar uma surra.
14. merda – é merda (mesmo! Tás pensando o que o meu?) Ti peguei, hein?
15. us cambau – aos montes; us cambau a quatro, um monte e mais um pouco (uma enorme quantidade)
16. faucudade – faculdade
17. istróva – estorvar, atrapalhar, causar confusão.
18. Parece qui nom reza! – diz-se de uma pessoa que parece não ter muita convicção do que afirma ou diz-e para uma pessoa que conta algo muito fantasioso e inacreditável.
19. intisica – intica - cutuca com vara curta, perturba
20. intiquento – aquele que intica.
21. Duvideodó – duvido muito.
22. amarelo – diz-se quando se quer menosprezar ou fazer pouco caso de alguém.
23 tanso – atolesmado, pateta.
24. lançu – lanço. Lance de rede de pesca de cerco que se puxa na praia depois de colocada em torno do cardume por barcos. Toda quantidade de peixes que é pescado é chamada de um lanço.
25. muntuêra – grande quantidade.
26. a dá cum pau – em uma quantidade enorme.
27. digêro – ligeiro.
28. na pancada da maré – no lugar onde as ondas batem ao chegarem próximo da praia.
29. bicha – fila
30. puada – ligeiro, lépido, “na puada” – ligeiramente, rapidamente.
31. Posé - Pois é
32. distrambelhadu – destrambelhado, desarrumado.
33. dá uma di bentivi di isgreja – dar uma de bem-te-vi dea igreja – quando uma pessoa está querendo aparecer muito.
Que Deus os abençoe,
Caminha
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domingo, 21 de junho de 2009
Outono, folhas...esperanças
Vai aí, mais um de meus poemas. Espero que apreciem.
Fim de Outono, começo de inverno, folhas que caem, vida que hiberna. Nós, como as folhas, de passagem... O frio convida o aconchego.
Grande Abraço,
Que Deus os abençoe,
Caminha
Folhas de Outono
São como esperanças,
As Folhas de Outono.
Voam sem saber prá onde
O vento as leva.
Caem porque – urge que caiam!
Donde saíram,
Um broto nascerá.
São folhas, só folhas.
No solo, um tapete – nada mais!
Os pés que as pisam,
Errantes, apenas passam,
Que destino tomarão?
São como o futuro,
Os caminhos pisados,
Nas folhas de outono.
Incertos, imprecisos,
Calçadas de descalços.
Homens cruzam os caminhos,
Pés pisam as folhas,
A vida vai passando
Os passos se vão indo,
Rumo ao amanhã.
Assim mesmo,
Tão certo,
Como uma nova estação,
Como o inverno que virá!
Outono é caminho... de passagem!!!
Luiz Eduardo Caminha
Amor, Paz e Bem, que não custa nada a ninguém!
Floripa, Ratones, 03.05.2009
segunda-feira, 15 de junho de 2009
De poetas e velas
Um papel em branco, um mar, uma vela branca, um oceano, um poeta, um velejador.
Papel e vela prontos para serem rabiscados!
Navegam as rimas, escrevem as ondas,
Veleja a liberdade!
Aí vai mais uma ousadia de me fazer (ou querer) poeta, muito menos que navegador.
Que seja!
O POETA E O VELEJADOR
Escrever está
Para o poeta, um cantor,
Como velejar,
Para o navegador!!!
Ao poeta cabe velejar
Nos oceanos de si mesmo,
Ao navegador, largar-se ao mar,
Fazer, fora de si, viagens a esmo.
Naquele, a brisa faz a pena
Navegar sobre o papel,
Neste, o vento faz poema
Singrar seu barco, sob o céu.
Sonham ambos, devaneiam,
Cada noite, cada dia,
Ao brilho da lua vadia,
Delírios que vagueiam.
Assim, lá os dois, se vão.
Poeta a velejar,
Velejador a poetar,
A rima, o mar, fazem seu pão.
Em cada folha de papel,
A poesia faz viagem
A cada porto de passagem,
Uma amada espera, fiel.
No porto, esperam a viragem
No horizonte, oceano, céu.
Rabiscam poesias... num papel
Riscam cartas... de viagem!
Poesia navega... veleja afinal!
Luiz Eduardo Caminha
Floripa, Ratones.
Escrevinhada em 17.05.2005
Revisada em 14.06.2009
Amor, Paz e Bem, que não custa nada a ninguém!
Que Deus os abençoe,
Caminha
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domingo, 7 de junho de 2009
Réquiem à minha mãe
“requiem aeternam dona eis” – dá-lhes o descando eterno
Faz, hoje, uma semana que perdemos nossa mãe. Edy Ávila Caminha, a vó Edy. Ainda lembro. O sol de outono já declinava sua cabeça por trás dos montes, a luz do dia ia se apagando, o dia se findando, o crepúsculo anunciava uma noite estrelada. A pressa dos trabalhadores do Jardim da Paz denunciavam: temos que terminar antes que a noite chegue. Lembrei do sepultamento de Jesus. A correria - mal deu tempo para despedidas - nenhum osso quebrado, cumpria-se a Escritura.
O som das lápides de cimento colocadas por sobre o caixão, o roçar das colheres de pedreiro a vedar qualquer buraco que restasse, o surdo compasso do barro caindo sobre as lápides que encobriam uma urna de madeira, último descanso daquele corpo inerte. Ainda lembro de seu rosto sereno, parecia ter sido submetida à uma plástica facial. Irradiava luz, irradiava paz, irradiava esperança. Parecia disfarçar um sorriso de satisfação.
Hoje ainda sinto um sentir diferente. Não foi assim quando perdemos nosso querido pai Hamilton, nem quando nos deixou nosso irmão Luiz Fernando. A medicina ayurvética chama a isto de memória celular. Deepak Choppra traduziu-nos como memória quântica. Como se cada célula do corpo transmitisse a cada uma que lhe substitua, no frenético nascer-morrer de nossos tecidos, a carga de memórias vividas.
Talvez eles tenham razão. O que sinto, quem sabe, esteja ligado a isto. Ao fato de que cada filho experimentou transmitir àquele ser em formação, esperança do amor dos pais, nove meses de mensagens memoriais de um ventre, abençoado pela fecundidade. Talvez estas impressões sejam a causa deste jeito diferente de sentir. Não sei! O fato é que o sentimento da perda de uma mãe é, pelo menos para mim, diferente da perda de um pai ou um irmão. De todos sentimos a falta. De todos nos emocionou e levou às lágrimas a partida, o adeus final, de todos sentimos a tristeza e a dor fazendo morada em nosso coração. Mas no caso de uma mãe, assoma-se um outro sentimento de perda. Como se algo fosse arrancado de nós mesmos, talvez de nossas células. É como se morrêssemos também um pouco. Como se um vazio invadisse nosso coração e, como um tsunami, percorresse todo o nosso corpo. Um vazio ausência, como aquele cobertor que, nas noites mais frias, cisma em abandonar seu lugar, cair ao lado da cama, nos deixando expostos. É isto! Um cobertor. É a melhor ilustração que possuo. Este sentir é tal qual um manto que nos foi tirado em dia frio. A pele, a própria carne, sente que algo aconteceu. Um rompimento com a segurança, com a proteção. Que é diferente é!
É assim que sinto!
Eu creio, sim, na Igreja Universal, na comunhão dos santos, na Igreja invisível, na koinonia - união de todos os irmãos que crêem, os vivos e aqueles que já partiram. Entretanto, fica aquela percepção de ausência de proteção quando sabemos que ela, a nossa mãe, não está mais lá, fisicamente, ante seu oratório de inúmeros santos, a pedir intercessão por nós. Fica a sensação daquele elo quebrado que, dia a dia, minuto a minuto, em frente ao seu altar, defronte à Rede Vida, estava lá, a pedir pela gente. Falta aquele telefonema, uma, duas, três vezes ao dia, às vezes, a comunicarmos que tudo ia dar certo porque ela já havia orado a Deus. Nós poderíamos até esquecer, ela não. E esquecíamos não por negligencia. Sabíamos que ela estava lá. Como as freiras clarissas que lá estão, escondidas a orar pela humanidade, a preencher o espaço deixado pela falta de oração desta própria humanidade.
Eu sei! Eu sei! Agora ela não precisa mais fazer suas orações naquele oratório, na frente da televisão ao assistir a Rede Vida, de olhos fechados, na cama, ao desfiar as contas de seu rosário. Agora ela está lá! Despacha direto com Deus. Ela não precisa mais lembrar Maria, inúmeras vezes, para interceder por nós junto a seu Filho Jesus Cristo e a Seu Pai. Agora é Maria quem lhe dá a mão e lhe põe de joelhos defronte à sarça ardente, aos pés do Seu e Nosso Senhor. Não precisa mais confundir e assoberbar seus santos com pedidos para uns e para outros. Agora ela o faz pessoalmente, em união com eles, como se fosse um deles.
Há muitas outras coisas que se foram. As continuas trapalhadas, o falar rápido, o “tenho medo de ti, guri! Alguns palavrões que já foram, de tão inocentes, incorporados ao Aurélio, a insistente e inconfundível desconfiança, herança de São Tomé. Também não vai ter mais a subtração distraída de um carro estranho num estacionamento de um “shopping” porque a sua chave lhe coube no estojo, nem terá mais que reclamar com a gerência da loja porque o manequim de gesso da vitrine não lhe dera atenção, nem o fantasiar-se de mascarado vai haver mais.
Enfim, muitas coisas doces, hilárias, algumas tristes, a maioria alegres, ficarão na nossa lembrança até que partamos para, merecendo-o, encontrá-la. Sim, porque ela está lá. Já encontrou a todos. Nosso pai, que após sua morte roubou-lhe muito da vontade de viver e resmungar, seu amado segundo filho, um inconformismo que disfarçava magistralmente de todos, seus irmãos, sua mãe, a vó Mimosa, tantos outros e, sobretudo, Deus Pai, Jesus Cristo, Maria, nos quais acreditava tanto e tinha uma intimidade tão intensa como se dividisse, com eles, o espaço de seu apartamento.
Mas, por certo, estará vigilante, pelos seus, por nós, por todos os parentes, pelos amigos. Não tenham dúvida, ela não se conformará como o rico que pediu a Deus permitir que Lázaro avisasse seus parentes que o inferno existia. Com certeza, ela encherá tanto a paciência de Deus Pai que Ele a permitirá, sim, vir visitar-nos para dizer: o céu existe, o inferno também, façam tudo direitinho para virem para cá, para o céu, para a eternidade, onde estamos.
A Rede Vida perdeu uma fiel telespectadora. O Céu ganhou uma atriz, estrela de primeira grandeza.
Se não crêssemos nisto, como diz São Paulo, vã seria nossa fé.
Até breve, mãe! Até breve vó Edy.
Luiz Eduardo Caminha,
Ratones, Floripa, 05.06.2009
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Parafraseando Pessoa
Amigos,
Que me perdoe Fernando Pessoa, um dos maiores poetas portugueses, senão o maior, mas não dá para aguentar Brasília. Ela é a anti-poesia de Pessoa e seu mar não tem as cores do mar português ou de qualquer outro mar. Seu mar tem a cor de "burro quando foge", a cor da lama, aonde navegam fogosos marinheiros, acostumados, com raríssimas excessões, a vilipendiar o erário público, o povo brasileiro. Nem o mar do caribe viu tanta vilania.
Parafraseando Pessoa
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. (
...
Deus quis, Juscelino sonhou,
Lucio Costa planejou,
Niemayer projetou,
Burle Marx fez seus jardins,
E o diabo...
Plantou a corrupção,
Nas suas duas variedades,
O corruptor e o corruptível.
Nasceu Brasília, o Congresso,
A Esplanada, a Belacap.
A obra?
Não! Um cancro,
A espalhar metástases,
Brasil afora!
P.S. Pessoa imaginou um Portugal império que se consolidaria pelo imenso oceano, o mar português. Brasília também é oceano, também é mar... de lama e corrupção!
