caminha, caminhando, poetando, vivendo como Deus me permite viver. É assim que vou. É desse jeito que sou. E aqui vão: notícias mensagens, poesias, crônicas, artigos, enfim, tudo que gosto e sou, parte dos caminhos que este caminhante procura seguir. Apenas isto!

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sábado, 6 de julho de 2013

stmt.com.br - Meu pé de araçá

Amigos,

Da série: Minhas crônicas


Meu pé de araçá


“O homem só se realiza depois de plantar uma árvore,  escrever um livro e ter um filho.” (dito popular)


Plantar uma árvore é um ritual que deveria ser experimentado por todo o ser humano. Lidar com a terra, afundar-se nela, provoca sensações que poucas vezes temos chance de desfrutar. Afagar a terra, sentí-la escorregar entre os dedos, misturar-se a ela, nos faz experimentar a energia cósmica. É indescritível...

Para ler o texto completo: stmt.com.br - Meu pé de araçá

terça-feira, 12 de junho de 2012


Livro sobre o Stammtisch, um sabor de vitória...

Para este humilde manézinho papa-siri foi, em minha vida, uma das maiores honras ter tido a oportunidade de me inserir na cultura germânica, em especial aquela trazida pelos seus descendentes para Blumenau e Santa Catarina. A ocasião surgiu em Abril de 2.000. Eu e o amigo Norberto Mette criamos um bloco intitulado Stammtisch, inserido ao final do Programa FelizCidade, por mim apresentado na TV Galega de Blumenau. O quadro, de 24 minutos, virou programa de hora inteira e em três meses já se tornava o maior sucesso da emissora. Uma hecatombe de e-mails e telefonemas acusando a audiência e pedindo participações. Dali veio o 1º. Encontro de Stammtisch, no memorável 26 de Agosto de 2.000, abrindo as festividades de 150 anos de fundação da cidade. Foram apenas 17 grupos. Chuva que Deus dava. Todo mundo firme, na chuva, na XV, a Würststrasse dos tempos coloniais. Nós, da TV Galega, do já famoso Programa Stammtisch, transmitindo em preto e branco, por ironia do destino e mancada de nosso falso câmera-man. A transmissão marcou a parceria exitosa com a Pacto Vídeo (Carlos Pimpão & Miriam Mesquita) que nos acompanhou nos tempos mais notáveis do programa. Sucesso!!!
O programa continuou bombando e vieram, numa sucessão frenética, no espaço de um ano, o 2º. 3º. e 4º. Encontros, com 26, 34 e 72 grupos, respectivamente. Um crescimento vertiginoso que culminou, na 9ª. edição, com 275 grupos, recorde da primeira fase da festa. 27 mil pessoas se espremendo naquele palco vivo de tradições. Foram – e são a cada edição – dias luminosos. Fantásticos. Dias de celebrar a vida. Brindar a amizade. Compartilhar alegria.  Hoje, doze anos depois, a festa está consolidada, a tradição resgatada e a “Strassenfest mit Stammtischtreffen”, o Encontros de Stammtisch, que a compreensão errônea da língua alemã teimou em chamar apenas Stammtisch, já é copiado por mais de 60 municípios catarinenses. Uma confirmação da grife Blumenau.
Durante este tempo, foram 10 anos de pesquisa ininterrupta. Veio, em Dezembro de 2005, o lançamento do Site Stammtisch, Confrarias e Patotas. Um assombro. Em apenas quatro meses, o 1º. lugar nas referências para o termo Stammtisch nos principais sites de busca do mundo inteiro. Posição perdida para a Wikipédia em 2010, face a convalescença de um transplante de fígado que me afastou da internet e me obrigou interromper as postagens periódicas semanais. Ainda assim, hoje ostentamos a 2ª. e 3ª. posições, ratificando que mexer com tradição em nossa terra, em nosso Estado não é para brincadeira.
Depois do site, foi a vez de registrar tudo em livro. Intitulado “Stammtisch, Reinventando tradições” procurei colocar à público todo o aprendizado de minhas pesquisas. Foram nada menos que 1068 documentos, dos quais, por puro desconhecimento das regras bibliográficas, citei apenas 275. o que já é muito.
É ou não é, digam-me, um orgulho pertencer ao rol daqueles que, por mínimo que tenham feito, ajudaram a construir a re-invenção de uma das mais fantásticas tradições do velho mundo? Resto-me inchado de orgulho e prazer por termos, juntos, apresentadores, coordenadores, equipes de apoio e especialmente os Grupos de Stammtisch alcançado tão honorável vitória. Perdoem-me!

sábado, 8 de outubro de 2011

AMIGOS

NOTA PRÉVIA: Este texto eu o escrevi há alguns anos atrás quando um grande amigo recebeu uma rasteira de um outro “suposto amigo” , desses que se aproximam apenas por interesse. Este meu amigo entrou em depressão. Recolheu-se como uma libélula que adentra ao casulo, como um velho urso em hibernação. Ao visitá-lo, sua tristeza foi, para mim, um choque. Perdera completamente a alegria. Ao falar, seus olhos, volta e meia enchiam-se de lágrimas. Prestei-lhe minha solidariedade alicerçada numa amizade de muitos anos que, graças a Deus, permanece até hoje. Enviei-lhe o texto, outros amigos se achegaram para emprestar seus ombros, servir-lhe como bengalas e, aos poucos, ele se recuperou. Não sem, entretanto, sentir marcada em seu coração a cicatriz daquela traição. Seu olhar alegre, até hoje, para quem o conhece há anos, ainda guarda uma tênue nuvem daquele triste episódio.

Como recentemente passei por uma experiência quase que semelhante, achei oportuno publicar o texto. E o faço em homenagem aqueles que são meus verdadeiros amigos. Aqueles que me depositaram sua solidariedade e os que a mim se ombrearam. Para que reflitam e celebrem comigo a amizade. Mas faço-o também para aqueles que se dizem "ser amigos", que estão amigos por conveniências. Para que fiquem alertas. Nós parecemos, mas não somos tolos. Um dia, cedo ou tarde, acabamos descobrindo a que vieram.

Que Deus abençoe os meus amigos e perdoe aqueles que se dizem ser.


A M I G O S

"Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos"(Evangelho segundo João 15,13)


Amigos?

Eu os divido em dois grupos : aqueles que estão e os que são.

Os que estão, são aqueles que se aproximam da gente, ocupam espaços, empatam nosso tempo, estão sempre presentes, a todo o momento. Parecem querer respirar o nosso ar, roubar nossos espaços, ocupar nosso lugar.

A princípio nos encantam, temos a sensação que vêem para render nosso cansaço. Estão, aparentemente, disponíveis para tudo.

Às vezes, passam rapidamente por nossas vidas, outras vezes, permanecem por um tempo maior, confundem-se até com nossos parentes, nossos filhos, nossa família. Sua disponibilidade parece-nos infinita. Assemelham-se a flores perenes, a frutos de quatro estações.

O tempo passa, as flores murcham, o tempo de colheita se vai. Aí, então, começamos a notar que, na verdade, são apenas amigos temporários. Estão amigos porque algo de interessante, em nós, muito lhes interessa.

Praticam, conosco, um verdadeiro comércio. Não apenas no sentido amplo da palavra. Mas até no estrito senso da mais pura relação comercial.

A nós, cabe-nos entrar com nosso coração, nossas paixões, nossas emoções. O produto que lhes interessa é nossa própria vida, nosso jeito de ser, nossa alegria, nossa espontaneidade. Como adorno deste produto, e para valorizá-lo, ainda nos tomam a fé que nos move, nossa esperança e bondade. Enfim, as qualidades que nos tornam especiais e, comercialmente atraentes.

A eles, cabe como moeda, como pagamento, o seu tempo, como que um extrator a sugar-nos a energia de que dispomos. E a sugam quase toda, na medida em que nossa companhia, nosso produto, pareça-lhes interessante, para projetá-los, para que brilhem ou apareçam.

E assim o é. Quando aquele produto, um simples objeto, já não mais lhes interessa, começam a mostrar seu lado egoísta, seus egocentrismos. Pensam nos usar antes de jogar-nos de lado. Acham que tudo podem, até mesmo subjugar-nos as suas vontades, seus prazeres, a sua inabalável necessidade vocacional de subir ao pódium, nem que para isto, tenhamos que ser transformados em seus degraus, seus trampolins.

São compulsivamente racionais. Calculam tudo, passo por passo. Só a razão lhes impulsiona. As emoções, o coração, são, para eles, coisas de trouxas, de fracos. Mal sabem que aí está nossa fonte de energia, nossa mola propulsora.

A rigor, não deveriam ser chamados “amigos”. Amigo é uma palavra forte, comprometedora. Deriva do latim, do verbo “amare” (amar),significa benévolo; propício; aliado confederado; aprazível; deleitoso; querido; amado. Entretanto, durante o tempo em que estão a usufruir nossas energias, nossa companhia, são tão envolventes e cativantes que, em nossa inocência, dedicamos-lhes todos estes significados e, realmente, chegamos ao ponto de amá-los, de confundí-los e colocá-los no rol de nossos diletos amigos.

Sua lei maior é a individualidade … o seu ego, temperado pela inveja do que somos .

Já os que são amigos, são aqueles que, como nós, têm o coração como porta de entrada. Recebem-nos pela cozinha, o coração de suas casas. São impulsionados pelo sentimento da fraternidade, este dom que Deus usou, para marcar os especiais, como se tange o gado, a fim de mostrar ao mundo, que existem irmãos.

Estes são aqueles que ocupam nossas vidas, no devido espaço de tempo e lugar, respeitando os seus e os nossos limites. São discretos, humildes, pacientes, mas sempre alegres, esfusiantes. Transformam-se, entretanto, em verdadeiras feras, quando alguém ousa tocar-nos, ou sequer, tenta manchar nossa imagem.

De maneira geral, são seres que o sabemos, com eles poder contar, principalmente, naquelas horas difíceis, nos momentos em que as energias estão quase se exaurindo.

Aliás, são aqueles que se põem em nossas vidas com seus ombros ou como bengalas, prontos para suportar nosso choro, nossas lamúrias. Não nos deixam cair. Caem conosco, para ajudar na hora de levantarmos.

A diferença entre estes dois tipos de amigos, só a sentimos nas horas amargas, naqueles momentos em que nosso coração está partido, nossa estima está em baixa.

Aqueles que estão amigos, nestas horas, não o são. Ao contrário, os que são amigos, nestas horas, sempre estão… conosco, custe o que custar, doe a quem doer. Basta-nos, para isto, um aceno ou deixá-los perceber nosso desejo de tê-los por perto.

São presentes na dor e na alegria, no abraço e na saudade. São os que, às vezes, pensamos ausentes, mas na hora H, no momento certo, sem menos esperarmos, se fazem presentes, sem trocas, sem comércio.

Sua lei maior é a solidariedade.

O tempo passa, as flores murcham, os frutos se vão, mas eles estão ali, esperando o inverno passar para, novamente, ser flor, fruto e semente, em nossas vidas.

Com quem ficar? A quem escolher? Depende de nós!!!

Eu, particularmente, prefiro os que são meus amigos, mesmo que saiba não poder estar com eles, a cada minuto, porque, também eles, têm suas próprias vidas, seus próprios problemas, suas aflições. Sei, entretanto, no fundo de meu coração, que me são eternos e as suas vidas, os seus problemas, as aflições, as alegrias, se fundem com as minhas, como se cada um destes sentimentos, destas emoções, fosse parte de nós mesmos e a todos pertencessem.

E os prefiro porque, aqueles que estão amigos, mesmo que queiram a todo minuto ocupar meu tempo, seu próprio tempo lhes é efêmero, breve, como a pluma que o vento sopra, voa alto, mas há de cair. Como a gota de orvalho, que brilha sobre a flor e, depois da queda, pelo chão se esvai.

Prefiro os que são, sem dúvida, porque os que estão, sinceramente, já não tenho mais paciência para aturá-los.

Com os que são crio uma dívida eterna, que faço questão de ter e jamais poderei pagar. Sei que nunca me cobrarão nada porque, certamente, de mim também são devedores e sabem, nunca irei cobrá-los. Nossa moeda de troca é a amizade. Aquilo que vai em nosso coração.

Os que estão amigos, nada lhes devo. Como relação comercial, já os paguei e deles, recebí o pagamento devido. Já lhes passei recibo, quitado.

Os que estão amigos, terminam ou vivem suas vidas sózinhos, abandonados. Restam-lhes apenas o seu eu.

Já os que são amigos, terminam ou vivem suas vidas, cercados de gente, nem que seja uma só gente, para dividir, juntos, esta festa que é a vida.

Luiz Eduardo Caminha

Florianópolis,

Distrito (In)dependente de Ratones, 31.08.2007. Revisado em 24.10.2008

sábado, 22 de janeiro de 2011

O trem*

Luiz Eduardo Caminha



O trem passava em nossas vidas como se preenchesse nossos sonhos infantis de viagens. Bléim! Bléim! Bléim! O coração pulava na boca com a emoção transmitida pelo som das badaladas do motorneiro...

Leia aqui "O Trem", conto classificado entre os 100 melhores contos curtos do PRÊMIO LITERÁRIO CIDADE DE PORTO SEGURO DE CONTOS CURTOS - Edição 2010

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A lenda de Iaraguaçu*

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Iaraguaçu, grande mãe d’água, era uma velha índia da aldeia Mbyá, do tronco Guarani-karijós, que habitava a ilha de Santa Catarina nos séculos XVI a XVIII, quando o homem branco chegou. Sua tribo descendia dos últimos sete casais fugitivos dos brancos invasores que massacraram a maioria dos Guaranis-karijós da Ilha da Magia. Antes, os casais refugiaram-se no sul da ilha, donde atravessaram para a Praia da Pinheira. Ali, permaneceram apenas um verão, temerosos de novos massacres. Foram para o Morro dos Cavalos. Anos mais tarde, seus pais e parentes migraram para o local onde vivia. Eram pescadores e não podiam viver longe das águas. Dela tiravam seu sustento em canoas de um pau só de garapuvu. Assentaram-se, ainda na segunda metade do século XVII, às margens da Lagoa de Fora, como chamavam a Lagoa de Santo Antônio onde, na margem oposta, crescera a Vila de Laguna.

Iara, como gostava que a chamassem, vivia numa choupana de paus e telhado de folhas de Indayá, uma palmeira da região. Desde pequena tinha visões que prenunciavam coisas boas ou ruins. Na tribo, estas atribuições eram próprias dos Pajés, mas muitos de seus “irmãos da terra” - como ela chamava os índios – dela se valiam. Também era dada a práticas medicinais e até caciques vinham atrás de seu conhecimento sobre as ervas.

Era o ano de 1838. Sua idade era desconhecida, mas os fatos que narrava ter vivido, como a fundação de Laguna em 1776, supunham que beirava os 75 anos. Sua vida resumia-se aos arredores da choupana e, boa parte do dia, em torno de um fogão de barro construído por um de seus netos. Curava muita gente, dava muitos conselhos e mesmo as autoridades de Laguna e as famílias de posse, de vez em quando, a ela recorriam. Afirmavam que, além das curas, ela mudara a vida de muita gente com seus aconselhamentos e adivinhações.

Ainda menina, fora levada pela mãe para servir a uma família da Vila, mas não sabia viver longe da liberdade da mata. Quase nada fazia que fosse costume dos brancos. Sua Senhora, uma mulher má, surrava-lhe com açoites e com uma espalmadeira “pra aprender as coisas”, como dizia.

Um dia, já moça feita, depois de inúmeras tentativas de fuga, fora mandada embora. A mãe já não vivia mais. Havia morrido de fraqueza nos pulmões, doença trazida pelos brancos. A maioria da aldeia havia deixado o lugar.

Iara foi catequizada aos 30 anos e aprendeu malmente a língua dos brancos misturando palavras com o tupi-guaraní. Era assim que falava com as pessoas que a procuravam. A todos atendia e transmitia sua paz interior, fruto das bênçãos de Nhanderú-etê, o Deus Verdadeiro, em quem acreditava.

Vivia com o neto, um cachorro velho e uma formosa águia cinzenta que ela mesma amestrara. Os moradores de Laguna já haviam se acostumado com sua presença soberana e solitária nos céus. Sempre que ela aparecia com seus estridentes trinados, alguma coisa estava por acontecer. Diziam que era Iaraguaçú que a enviava para lhes avisar. Era corrente a crença: quando a águia de Iaraguaçú plainava silente era época de calmaria e peixe em abundância, mas quando aparecia gritando e fazendo voos rasantes, um tempo ruim estava por vir. Era melhor guardar os animais, não sair para o mar e recolherem-se em suas casas, “prá modo de mal algum assussedê”, como diziam os matutos pescadores. Era dito e feito. Quando alguém desafiava o aviso, alguma tragédia acontecia. Barcos que soçobravam, pessoas que adoeciam – e até faleciam – vítimas de uma molha de chuva, gado que morria por ter ficado fora dos potreiros, enfim, o melhor era se precaver.

Uma das protegidas de Iaraguaçú era Aninha, a quem chamava kunhataí, filha do tropeiro Bentão. Fora Iara quem prevenira Aninha que seu casamento, arranjado pela mãe, com o sapateiro da cidade, não vingaria. Também previra que Aninha iria esposar um aventureiro de outras terras, vindo do mar, um valente que viria junto com a guerra que aconteceria no sul do Brasil e que tentaria criar em Laguna uma outra nação, a República Juliana. Tudo acontecera como dissera. Até a doença do pai, também vítima dos pulmões, quando tomara uma chuvarada no alto da Serra do Dose, assim escrita, com “esse”, em virtude de um estalajadeiro italiano da família Dose que vivia no sopé da escarpada montanha. O pai não aguentara e, como previra Iara, atravessara “manõ yvy ugwa” - o vale da morte, para se juntar a Nhanderú-etê.

Aninha não dava um passo sem consultar a velha índia. Muitas vezes, quando algo lhe afligia, era a própria águia que pousava num galho alto de um garapuvu, perto de sua casa, emitindo trinados peculiares, sinal de que a índia queria lhe falar.

Por isso, Aninha muito chorou quando a velha amiga partiu. Teve um estranho pressentimento naquela manhã, ao ver a chuva incomum com raios e trovões como se fosse uma chuvada de verão.

De repente, o sol se abriu, o vento parou e um duplo arco-íris, que ia em direção à Lagoa de Fora, apareceu no céu.

A passarada, que já vinha se ocupando do acasalamento, no leva e trás de palhas e raminhos para os ninhos, parecia ter sido convocada por um Ser Supremo para uma revoada conjunta. O barulho dos pardais, tico-ticos, sabiás laranjeiras, coleirinhas e dos sanhaçus azuis, se misturavam com o gorjeio das pombas rolas e com o grito agudo dos gaviões. Uma Sinfonia da Natureza. Todos os pássaros seguiam o mesmo rumo, em direção ao final do arco-íris. Nas ruas, cavalos relinchavam como se pressentissem um predador. Cães ladravam. Não um latido comum. Uivavam como se estivessem a sofrer, a chorar.

Foram três minutos daquela algaravia. E uma calada se fez. Um grito agudo, da águia cinzenta que voava acima de tudo, rompeu o silêncio. A atenção se voltou para os lados da Lagoa de Fora.

A notícia correu pela Vila como o vento gelado vindo do Sul. Era trazida por “pena-esvoaçante” o pequeno indiozinho carijó, o neto que vivia com Iaraguaçu.

~ Mãe Iara suspirou! Foi pra terra de seus pais! Seu espírito viaja pra encontrar “Nhanderú etê”.

Aninha montou seu cavalo assim mesmo, no pelo, sem perder tempo de encilhá-lo. Disparou em cavalgada para as bandas de onde, à beira da laguna, jazia no leito de palha, o corpo da amiga. Chorava pelo caminho. Suas lágrimas escorriam pelo rosto e embaçavam-lhe a visão.

Não foi só Aninha a única que para lá se dirigiu. A cidade quase se esvaziara para reverenciar a velha índia. Até o Vigário se abalou, em uma charrete, para lá estar. Embora guardasse alguma ligação com aquela espécie de ocultismo dos silvícolas, ele não tinha dúvidas, ali, naquele corpo, habitara um Anjo. Não! Iaraguaçu não era uma bruxa como insistiam alguns poucos maldizentes. Seu Deus era o mesmo Deus da Cristandade. Quando fazia uma prece a “Nhanderú etê”, estava orando ao Deus Verdadeiro dos cristãos. Quando rogava a “Nhanderu ra'y”, o filho de “Nhanderú etê”, era a Jesus Cristo que evocava. Por isso, e por ser batizada, merecia um enterro cristão, no Cemitério da Vila.

Mas, estas vãs preocupações eram desnecessárias. Iara tinha um testamento. Queria um enterro cristão, mas também, de acordo com a tradição tupi-guarany, ser enterrada no Campo dos Espíritos, aonde muitos de sua tribo jaziam em paz. Manifestou ainda em vida, o desejo de ter os serviços funerais de um padre, mas queria que seus restos repousassem com sua gente.

Aninha estava desolada, mas ao mesmo tempo resignada. Embora triste, ficou ali, velando aquele corpo cuja alma, cujo espírito, já estava no lugar que a vida eterna lhe reservara. Um lugar diferente da choupana humilde e pobre que vivera, embora Iara sempre lhe dera a impressão que era feliz do jeito que vivia, da sorte que “Nhanderú etê” lhe reservara. Talvez porque soubesse que a morte era uma passagem para um lugar de Paz, sem sofrimentos, sem o frio gelado do inverno e o calor insuportável dos verões. Uma vida onde as primaveras e os outonos eram as únicas estações. Lá, onde dizia que seu pai Bentão também estava, Iara seria uma luz a brilhar em todos os momentos.

Hoje, as águias cinzentas são uma raridade. Como os índios, foram enxotadas por seu predador, o homem. Mas o espírito de Iaraguaçu ainda paira sobre a Lagoa. Dizem os mais antigos que quando uma tormenta vinda do sul ameaça os pescadores, basta uma prece: “Iaraguaçu, grande mãe d’água, socorrei-nos!” Logo o vento se dissipa e a calmaria reina absoluta.

Quando uma águia cinzenta ainda é vista plainando silente e graciosa sobre os céus da região, os mais velhos sabem que a pesca do camarão e das tainhas será afortunada.

E ainda se recolhem e se protegem quando ouvem alguma delas, com trinados agudos voarem em rasantes por ali.

Luiz Eduardo Caminha

* Lenda premiada em 1º. Lugar no 1º. Concurso Internacional de Lendas e Poesia ME - 2010

domingo, 25 de outubro de 2009

O Rio das Olimpíadas

Um Rio Olímpico

2009, 02 de Outubro. O Rio será sede das Olimpíadas de 2016, a primeira da América do Sul. Escolha histórica e merecida.

1992, Olimpíadas de Barcelona. Desde a escolha, o Prefeito determina: a Olimpíada será o estopim de modernização da cidade numa urbe digna de seus cidadãos. Um projeto de inclusão. A área do porto, decaída pelo meretrício e criminalidade, transforma-se numa moderna Vila Olímpica. Os problemas foram encarados visando o pós-olimpíada. A cidade carrancuda torna-se uma alegre porta do Mediterrâneo. Barcelona renasceu para os barcelonetas. Acordou para o mundo.

1992. ECO-92. O mundo se volta para o conflituoso Rio de Janeiro. Ecologistas e celebridades políticas da Terra no Brasil. A cidade se prepara. Melhor: o aparato do Estado se prepara. Como? Com um projeto de exclusão. Dos pobres, dos marginalizados, das favelas. Uma cidade das celebridades foi isolada dum outro Rio. Um cinturão de soldados, armados até os dentes, isolava o problema de segurança, da cidade dos problemas: o Rio dos guetos, da criminalidade.

Rio 1997. Jogos Panamericanos. Novos sonhos, velhas promessas: urbanização, obras faraônicas, Vila Olímpica pensada para uma futura Olimpíada. Tudo como o cidadão espera. No que deu? Jogos, nota 10. Aparato Olímpico nota 100. Cerimoniais nota 1000. Urbe: nota zero. Projetos sociais, inclassificáveis. Mudanças de orçamento, desvios de recursos, corrupção. A história se repete. Novamente a exclusão. Exército nas ruas.

Sou a favor dos Jogos e do Rio - quem não seria? Mas espero que a Olimpíada traga alento aos cariocas. De atributos naturais extraordinários, dum povo alegre de uma amabilidade incomum, o Rio não pode mais se curvar aos paroxismos dos marginais e à negligência das autoridades. Que os Jogos sejam um marco de renascimento da outrora Maravilhosa Cidade, orgulho nacional. Mas que não ocorra de se marginalizar o ser humano. O projeto não pode se resumir a uma passarela de vaidades. Nem, tampouco, um manjar de corrupção. Todos querem ver a Cidade Maravilhosa transformada num Olimpo brasileiro, um panteão de glórias.

Que prevaleça o bom senso. Salve-se o Rio de suas mazelas e construa-se uma urbe digna para sua gente. Uma cidade que vive aos pés do Cristo Redentor não pode conviver com o paradoxo demoníaco dos contrastes mais inumanos existentes no mundo. A fome, a miséria, a criminalidade, a corrupção, o roubo, não combinam com o espírito do carioca, muito menos com os ensinamentos do Mestre. Que se volte a cantar: foi um Rio que passou em minha vida....

Luiz Eduardo Caminha

Floripa, Distrito de Ratones, 05.10.2009

domingo, 27 de setembro de 2009

Somos iguais perante Deus...

Quem é o maior?

“Tu és pó e ao pó tornarás” (Gênesis 3,19)

1978. Manchete: Descaso do governo na saúde. Médicos em greve. Eu fazia especialização no Rio de Janeiro e era do comando de greve. Reuniões infindáveis, discussões, negociações, assembléias. Os militares ameaçavam de urutus e o Exército, armas em punho, nos sitiava na Assembléia do Rio. Clima de guerrilha. Ao fim, algumas migalhas concedidas. Voltamos ao trabalho. Vitória de Pirro! Trinta e seis dias por quase nada.


Dias após, os lixeiros. Fedor de lixo acumulado nas calçadas, enxames de moscas toldando o céu. Uma semana. Tudo resolvido. O caos sanitário fez o Governo Municipal aceitar a maioria das reivindicações dos grevistas.

Vieram os motoristas de ônibus, profissional odiado pelos cariocas que os tinha como a escória. Gastei nove horas para fazer um trecho de quarenta minutos, de Vila Isabel ao Hospital, em Ipanema. Tudo engarrafado, buzinaço ensurdecedor. Doze horas de greve. O caos urbano elevou os motoristas à condição de gente. As empresas cederam a todas as reivindicações.

Qual destas categorias foi a maior? À luz da escala de valores estabelecida pelo status e por uma sociedade vítima do materialismo, a mais insignificante delas: os motoristas, seguida dos lixeiros e, por fim, nós, médicos. Uma inversão dos pés à cabeça.

Pode-se analisar estes episódios sob duas óticas: a paulina, inspirada provavelmente na milenar sabedoria dos vedas hindus: “o olho não pode dizer à mão: não preciso de ti. Nem a cabeça dizer aos pés: não necessito de vós. O corpo é um todo com muitos membros. Numa comunidade cada membro tem a sua função e todos formam um corpo cuja cabeça é o Cristo”, explica São Paulo. A outra visão é do próprio Mestre: “quem quiser ser o primeiro, seja o último, o servo de todos. Aquele que se tornar pequenino como uma criancinha, este será o maior... Quem se exalta será humilhado e quem for humilde será exaltado”.

Orgulho-me de ser médico. Minorar o sofrimento alheio e salvar vidas é função dignificante ante Deus e a sociedade. Mas, numa comunidade , não só o médico é importante. Todos o são. Costumo dizer: nascemos igualmente nus e ao morrermos, sejamos reis ou súditos, as minhocas comerão nossa carne. O importante é cada qual exercer sua função com humildade, visando o todo, a comunidade.
Bem diferente de alguns apaniguados do poder: a soberba os faz esquecer a comunidade a quem deveriam servir. Deus é quem está à sua direita. E o que vale é locupletar-se. Mateus, primeiro os meus! Quem tem ouvidos para ouvir que ouça.

Luiz Eduardo Caminha
Distrito de Ratones,
Florianópolis, 27.08.2009

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Blumenau, 159 anos

Blumenau revivida

Blumenau,21 de Agosto de 2009. O Prefeito João Paulo Kleinubing, ladeado pelo Diretor Erivaldo N. Caetano Junior e o gerente Alexandre P. Caminha, entregam à cidade o novo espaço do Procon e a Lei que regulamenta as atividades do órgão, entre elas o Poder de Polícia, que o torna mais eficaz. Presença do Vice-Governador Leonel Pavan, deputado Giancarlo Tomellin, vereadores, representantes do CDL, Sindilojas, entidades sindicais de trabalhadores, empresários. Clima de festa. Dia de cidadania. Festa de uma administração preocupada com os direitos do Consumidor. Blumenau 1 a 0.

Florianópolis, 23 de Agosto de 2009. Estádio da Ressacada, jogo Avaí x Flamengo. Arquibancadas e cadeiras tomadas. O Leão da Ilha em vias de se tornar o time que mais rodadas permanecera invicto na 1ª. Divisão do Futebol Brasileiro. 10 rodadas, mais precisamente.
De repente, acordes, som de instrumentos musicais. Nada das desafinadas bandinhas de torcidas. Uma verdadeira banda, du mann! O Prefeito JPK, ladeado pelo Presidente do Parque Vila Germânica, Norberto Mette, o Conselheiro Wilson Wan-dall, Princesas, Rainha e inúmeras autoridades, irrompem em meio à massa azurra. Promoviam a Oktoberfest 2009. Camisetas, canecos, chope, Ein Prosit! Todo o estádio, rádios e TVs se voltam para Blumenau. As cenas da tragédia de Novembro são relembradas em cada entrevista. O abnegado povo de Blumenau, mais uma vez, se supera e sobrepuja o infortúnio, mostra sua energia, como se quisesse humilhar a natureza pelos castigos que lhe impusera e... sai revivido!!! A voz de um manézinho se faz ouvir: “Blumenau! Dazum banho!” O Brasil inteiro ouviu pela TV o hino executado pela Banda Musical do Colégio Machado de Assis. Clima de alegria. Blumenau 2 a 0.

02 de Setembro de 2009. Blumenau, 159 Anos. A Rua XV revive a Wurststrasse colonial. Novo desfile, nova festa. Tudo novo, especialmente o espírito, a tenacidade, o Blumenauergeist, o desejo de vencer novamente, riscar da memória os rigores da tristeza. Só não se esquece o descaso do Governo Federal. Mais uma vez falta com a cidade, a região, o Estado. Como políticos da pior espécie, prometem e não cumprem!

Blumenau continuará produzindo, arrecadando impostos, esperando a esperança. Vencendo. Oktober à porta. Ein Prosit! Em 2010, uma nova Oktoberfest, uma nova eleição. Vai ter troco. Aqueles que prometeram e não cumpriram que esperem. Fahret zur Hölle!

Ah! Ia esquecendo: Avaí 3 a 0. Blumenau 1000 x 0.

Luiz Eduardo Caminha
Floripa, Ratones, 01.09.2009

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Crônicas dum mané

Pois meus queridos amigos,

Aí vai mais uma crônica dum mané! Divirtam-se! Tem numerozinho com tradução lá no final.


Tás querendo u que, sô istepô!
Por Luiz Eduardo Caminha

Dia dessis recebi um i-meiu du mô amigo Jorge Müller, lá di Joinvilli, mas qui mora im Blumenau a uma carrada di tempo. Óia só o que qui eli dissi:

2009/6/22 Jorge Alberto Müller
Confrades bom dia! Amanhã pela manhã irei comprar os Mugilideos da ordem Perciformes e nome científico denominado de Chelon labrosus em Itajai. Tb comprarei algumas ovas q farei da seguinte forma: .....+ 1 l. de.....e + 4/3 de ... e uma pitada de.....diluido com conhaque fran......em 1/2 porção de....e levado ao forno 19 min.......então e servir com...... até lá!!
As Chelon labrosus segundo informações nesta quinzena estão mais saborosas pois as que não foram pegas ainda, já nadaram bastante e portanto estão mais magras e menos estressadas fazendo que sua carne fique mais suave e c/ baixíssimo índice de colesterol abaixo do prejudicial as artérias. Portanto viva as Chelon ..na areia importada da praia do Pinho(segundo o presidente Fred!). JORGE


Oi, ió, ió! U que qui é issu, guri?!
Foi assim co fiquei quandu li essi negócio. Aí ó. Non contei tempu. Respondi na horinha, puto dus córnus. Mas fiquei curiosu di sabê u que caquilo quiria dizê!

Qui nomi mais istrombóticu (1) é essi? Que qui essi alemão ta inventandu? comprar os Mugilideos da ordem Perciformes, um tar di Chelon labrosus? Tas querendu u que, sô istepô?! Nunca vi um nomi dessis na minha vida!
Devi sê di cumê, né? Purque u Jorgi ta falandu qui vai faze essi tróçu (2) lá nu Terça a todu vapô, nu Clubi Bela Vista! Devi di sê cumida!!!

Lá vem essis alemão digraçadu cum essis nomi du cão di novu. Chelon? Pareci é nomi di bucica (3). Ôtro dia foi u Braz, cum aqueli negóciu di dizê qui bacalhau não era bacalhau. Era um tar de Códi non sei u quê. Cód Gabus Morhua, foi u nomi qui eli invento pru bacalhau. Até hoji não inguli essi tróçu. To cá ispinha atravessada nu gogó(4)!
Agora vem u mô amigu Jorgi cum essi Chelon não sei das quanta. Assim não dá né!! Tas querendo me arromba, ô? O tás é querendu mi gozá, Jorge?
Mas qui devi di sê cumida, issu devi. I cumida du mar, purque u Jorgi tomem diz qui vai comprá im Itajaí! Muié da vida é qui não devi di sê. Essas tomém si comi, mas di outro jeitu, é craro! Mas issu não devi di sê! Lá nu Bela Vista, elis não deixo fazê issu! Nem cá vaca tussa!

I tem mais. Vai sê nu istamitichi dus terçaferino. Intão é cumida. Tem di sê!
Ah! Qués sabe u que qui é essi tar di istamitichi, né? Ô isplicu prumódintendê(5)! Istamitichi é u nomi qui us alemão dão pra uma roda di amigus qui si reuni todu u santu dia ou uma veis pur semana, só pra jogá conversa fora, tomá uns ferru(6), cume uma cumida ou jogá uma bolinha, um dominózinhu, uma botchinha ou ôtra coza qualqué(7). U importanti dessa rodinha é mermu tomá uns ferru. Bia gelada pra maioria. É paricidinhu cu’as nossa patota, as nossa rodinha.

Pois é! U Terça a todu vapô é um istamitichi qui si reuni toda as terça fera pra faze issu: toma uns ferru i cume uma cumidinha. Pur issu co achu qui essi tar di Chelon é mermu cumida. I ôtra! U Jorgi é um cuzinhêru dos bom. Faz rabada, caranguejada i tudu mais. Nunca isqueçu a rabada du Jorgi. Ê! Pó pará pur aí. Não é u qui voceis tão pensandu. É rabada di boi, mermu!!! Óia, a rabada du Jorgi é di lambe us beiçu!!! Agora, co nunca vi fala qui essi tar di Chelon é coza di cume, issu ô nunca vi.
Bem, u jeitu era i vê si tinha arguma coza nu pai dus burru, né?!
Piscurei(8) nu Orélio! Nada! Nu Micaélis! Nada! Vai vê, pensei cá cus môs botão, é nomi francês. Ô sei lá??? Arriscá não custa! Já qui a vaca tá indu pru breju mermu. Morra a Marta, morra farta! Vamu lá! Fui pru Michelin. Nada tomém! Nem nu Gugle incontrei arguma isplicação. Ô mo Santu Antonho! Ô, minha Nossa Sinhora da Lapa! Mi dá uma luz pru modo ô incontrá u que qui é issu. To já ficandu doidu di isquentá a mufa(9) di tantu piscurá. Essi istepô du Jorgi. Mi faze ficá incasquitadu(10) dessi jeito. Tu me pagas, sô lambisgóia(11). Sô ti incontro doti(12) di relho(13), só pra tu aprende.
Foi daí qui começaru a chegá as resposta pro i-maiu du Jorgi. Gente curiosa, querendo sabe qui merda(14) era aquilu. Genti querendu isplicação ou botandu mais lenha na fuguêra. Tava já virandu gozação!Tomém Um nomi dessis, só pudia dá falatório.

Chuveu resposta ao i-meiu du Jorgi, nu mô computadô.
I foi aí co discubri tudinhu! Qués sabê u que qui issu qué dize? Ô não dissi qui era coisa di cumê?? Mas voceis não vão acreditá! Só prus córnus du diabu! Começa qui essi tar di Chelon dus cambau a quatro(15) não é essi. É essa. É u nomi científicu das nossa tainha. Pódi issu? Não vi issu nem nu científicu, nem nu ginásio, nem na faucudade(16), nem im lugá ninhum aqui na isla. Im Flonóplis ninguém sabi dissu. Tainha é tainha, ô mané!!! Nem vem qui non tem ô! Nem mi istróva!(17) Tás tolo é? Pareci qui non reza(18), Ahn! Ahn! Ahn! Sai daí ô. Não mi intisica(19) não, sô intiquento.(20)

Até a Gracinha, aquela minha prima, filha da Tia Quita, qui é professora i criada nu Riberão, nu meiu dus pescado, non sabe disso. Duvideodó(21)! A manezada aqui nunca ôviu falá dissu. Nem u dotô Galvão e a a muié deli, a Cida, qui são formado em manezês na faucudade do Pântano do Sul sabiam dissu, sô amarelo(22).
Agora já si viu? Chamá a nossa tainha di Chelon sei lá du que!!! Só coza di alemão, mermo!!!

Daí, môs amigo, dispôs di sabê, fui obrigadu a mi alembrá quantas i quantas vezis ô cumi dessas bichinha. Cum ova, sem ova, iscalada, rechiada, frita im posta cum pirão di feijão, di tudu qui é jeitu! Na casa du Tiu Ernani i da Tia Zilma! Du tio Elson i da tia Dalva! No Brunu i na Iracema! Na tia Idalina i nu tio Geraldinu! Na casa du Ramón i da Terezinha, lá nu Reberão! Na casa dus môs irmão, u Bitinhu, a Anamaria! Nus môs quiridu cunhadu u Nei i a Malba. Na casa du seu Nilu Machadu, lá im São Miguel. Na casa du Bicudo, du seu Silviu Nocetti, lá na Praia di Fora. Mô Deus du céu! Cumi muitu dessas bichinha, im tudu qui é lugá i sempri nós chamava elas di tainha. Ahn! Ahn! Ahn! Chelon! Só pra ti mermo, alemão. Agora mi diz aqui: alemão di Joinvilli conheci di tainha? Só pudia dá nissu!

Óia! Ainda na semana passada cumemo uma, eu i a Seluta aqui em casa, cuns amigu lá di Brusqui. Rechiadinha com farofa di camarão, ova di tainha, muela, fígado i coração. Di tainha né o sô tanso!(23) . é purque tu non devi nem di sabê qui tainha tem muela, né? Qui nem galinha!.

Óia, nóis só non cumia muita tainha lá na casa da mãe i du pai purque u mô pai não suportava pexe.
Era o friu chegá, as vezis antes mermu du invernu i lá vinha e épuca das tainha. Vinham di monte. Us lançu(24) di rede, traziam pras praias uma, duas, cincu, à vezis quinzi, vinti tonelada da bichinha. Uma muntuêra(25). Era tainha a dá cum pau!(26). Ô coza linda di si vê, um lançu di tainha. I tem ôtra! Todu mundu qui ajuda a puxá a redi leva umas tainha pra casa. Duas, três, meia duza! Dependi da quantidade qui vem na redi. Tá certo! U ajudanti tem qui sê digêro(27). Vai até na pancada da maré(28), cum água nas canela, gruda na corda i vem aquela bicha(29) di ajudante puxandu... i puxandu..., até chegá incima da praia. Dai, quando si chega lá incima, tem qui saí na puada(30) i corrê até a pancada da maré di novu. I dá-lhe a puxá.

Óia genti! Voceis já viru água fervê, né?! Pôs quando a redi tá chegandu pertu, u mar ferve qui nem uma chalêra! Di tantu peixe! Daí, quandu u peixe tá tudo num monte na praia, começa a divisão. Tudu im montinhus. É lógicu qui us monti maió são dus pescadô, us camarada e du donu da redi i du barco qui foi ponhá a redi. Mas todu mundu leva tainha pra casa. É uma festa.

Mas vamu pará pur aqui quessas lembrança, purque mi dá munta tristeza. Minha mãe i mô pai, quanu a genti era piquenu, gostavam di nus leva pra vê essis lançu. Lá im Canasviera. Até na Lagoa, nu tempu qui ainda não tinha a avenida das rendêra, qui era tudu praia , tinha lançu di tainha. Di lembrá dus dois mi enchi us óiu di lágrima. Di saudade! Tão nu céu, ô sei! Mas a saudade aperta u coração da genti!
Posé(31), môs amigu! Intão tá!
Chelon labrosus é u nomi i sobrinomi das tainha. I vai tê festa nu Bela Vista. Vai te tainhada. Di todu tipu. Purque cuzinhá u Jorge sabi! Valeu Jorgi! Mas da próxima, tu vê si não mi inrola cum essis nomi distrambelhadu(32), vissi? Ô tu tás é querendu dá uma di bentivi di isgreja?(33)

Luiz Eduardo Caminha,
Ratones, Floripa, 23.06.2009

Prumódintendê

1. istrombóticu – estrambótico, esquisito.
2. tróçu – coisa
3. bucica – cadela guaipeca, vira-lata.
4. gogó – garganta
5. prumódintendê – de formas a entender
6. ferru – ferro, bebida alcoólica, cachaça.
7. quarqué – qualquer.
8. Piscurei – procurei
9. mufa – cabeça
10. incasquitadu – cismado
11. lambisgóia – metido
12. doti – te dou, dou-te;
13. doti di relho – dar uma surra.
14. merda – é merda (mesmo! Tás pensando o que o meu?) Ti peguei, hein?
15. us cambau – aos montes; us cambau a quatro, um monte e mais um pouco (uma enorme quantidade)
16. faucudade – faculdade
17. istróva – estorvar, atrapalhar, causar confusão.
18. Parece qui nom reza! – diz-se de uma pessoa que parece não ter muita convicção do que afirma ou diz-e para uma pessoa que conta algo muito fantasioso e inacreditável.
19. intisica – intica - cutuca com vara curta, perturba
20. intiquento – aquele que intica.
21. Duvideodó – duvido muito.
22. amarelo – diz-se quando se quer menosprezar ou fazer pouco caso de alguém.
23 tanso – atolesmado, pateta.
24. lançu – lanço. Lance de rede de pesca de cerco que se puxa na praia depois de colocada em torno do cardume por barcos. Toda quantidade de peixes que é pescado é chamada de um lanço.
25. muntuêra – grande quantidade.
26. a dá cum pau – em uma quantidade enorme.
27. digêro – ligeiro.
28. na pancada da maré – no lugar onde as ondas batem ao chegarem próximo da praia.
29. bicha – fila
30. puada – ligeiro, lépido, “na puada” – ligeiramente, rapidamente.
31. Posé - Pois é
32. distrambelhadu – destrambelhado, desarrumado.
33. dá uma di bentivi di isgreja – dar uma de bem-te-vi dea igreja – quando uma pessoa está querendo aparecer muito.

Que Deus os abençoe,

Caminha

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domingo, 7 de junho de 2009

Réquiem à minha mãe

Faz uma semana

“requiem aeternam dona eis” – dá-lhes o descando eterno

Faz, hoje, uma semana que perdemos nossa mãe. Edy Ávila Caminha, a vó Edy. Ainda lembro. O sol de outono já declinava sua cabeça por trás dos montes, a luz do dia ia se apagando, o dia se findando, o crepúsculo anunciava uma noite estrelada. A pressa dos trabalhadores do Jardim da Paz denunciavam: temos que terminar antes que a noite chegue. Lembrei do sepultamento de Jesus. A correria - mal deu tempo para despedidas - nenhum osso quebrado, cumpria-se a Escritura.

O som das lápides de cimento colocadas por sobre o caixão, o roçar das colheres de pedreiro a vedar qualquer buraco que restasse, o surdo compasso do barro caindo sobre as lápides que encobriam uma urna de madeira, último descanso daquele corpo inerte. Ainda lembro de seu rosto sereno, parecia ter sido submetida à uma plástica facial. Irradiava luz, irradiava paz, irradiava esperança. Parecia disfarçar um sorriso de satisfação.

Hoje ainda sinto um sentir diferente. Não foi assim quando perdemos nosso querido pai Hamilton, nem quando nos deixou nosso irmão Luiz Fernando. A medicina ayurvética chama a isto de memória celular. Deepak Choppra traduziu-nos como memória quântica. Como se cada célula do corpo transmitisse a cada uma que lhe substitua, no frenético nascer-morrer de nossos tecidos, a carga de memórias vividas.

Talvez eles tenham razão. O que sinto, quem sabe, esteja ligado a isto. Ao fato de que cada filho experimentou transmitir àquele ser em formação, esperança do amor dos pais, nove meses de mensagens memoriais de um ventre, abençoado pela fecundidade. Talvez estas impressões sejam a causa deste jeito diferente de sentir. Não sei! O fato é que o sentimento da perda de uma mãe é, pelo menos para mim, diferente da perda de um pai ou um irmão. De todos sentimos a falta. De todos nos emocionou e levou às lágrimas a partida, o adeus final, de todos sentimos a tristeza e a dor fazendo morada em nosso coração. Mas no caso de uma mãe, assoma-se um outro sentimento de perda. Como se algo fosse arrancado de nós mesmos, talvez de nossas células. É como se morrêssemos também um pouco. Como se um vazio invadisse nosso coração e, como um tsunami, percorresse todo o nosso corpo. Um vazio ausência, como aquele cobertor que, nas noites mais frias, cisma em abandonar seu lugar, cair ao lado da cama, nos deixando expostos. É isto! Um cobertor. É a melhor ilustração que possuo. Este sentir é tal qual um manto que nos foi tirado em dia frio. A pele, a própria carne, sente que algo aconteceu. Um rompimento com a segurança, com a proteção. Que é diferente é!

É assim que sinto!

Eu creio, sim, na Igreja Universal, na comunhão dos santos, na Igreja invisível, na koinonia - união de todos os irmãos que crêem, os vivos e aqueles que já partiram. Entretanto, fica aquela percepção de ausência de proteção quando sabemos que ela, a nossa mãe, não está mais lá, fisicamente, ante seu oratório de inúmeros santos, a pedir intercessão por nós. Fica a sensação daquele elo quebrado que, dia a dia, minuto a minuto, em frente ao seu altar, defronte à Rede Vida, estava lá, a pedir pela gente. Falta aquele telefonema, uma, duas, três vezes ao dia, às vezes, a comunicarmos que tudo ia dar certo porque ela já havia orado a Deus. Nós poderíamos até esquecer, ela não. E esquecíamos não por negligencia. Sabíamos que ela estava lá. Como as freiras clarissas que lá estão, escondidas a orar pela humanidade, a preencher o espaço deixado pela falta de oração desta própria humanidade.

Eu sei! Eu sei! Agora ela não precisa mais fazer suas orações naquele oratório, na frente da televisão ao assistir a Rede Vida, de olhos fechados, na cama, ao desfiar as contas de seu rosário. Agora ela está lá! Despacha direto com Deus. Ela não precisa mais lembrar Maria, inúmeras vezes, para interceder por nós junto a seu Filho Jesus Cristo e a Seu Pai. Agora é Maria quem lhe dá a mão e lhe põe de joelhos defronte à sarça ardente, aos pés do Seu e Nosso Senhor. Não precisa mais confundir e assoberbar seus santos com pedidos para uns e para outros. Agora ela o faz pessoalmente, em união com eles, como se fosse um deles.

Há muitas outras coisas que se foram. As continuas trapalhadas, o falar rápido, o “tenho medo de ti, guri! Alguns palavrões que já foram, de tão inocentes, incorporados ao Aurélio, a insistente e inconfundível desconfiança, herança de São Tomé. Também não vai ter mais a subtração distraída de um carro estranho num estacionamento de um “shopping” porque a sua chave lhe coube no estojo, nem terá mais que reclamar com a gerência da loja porque o manequim de gesso da vitrine não lhe dera atenção, nem o fantasiar-se de mascarado vai haver mais.
Enfim, muitas coisas doces, hilárias, algumas tristes, a maioria alegres, ficarão na nossa lembrança até que partamos para, merecendo-o, encontrá-la. Sim, porque ela está lá. Já encontrou a todos. Nosso pai, que após sua morte roubou-lhe muito da vontade de viver e resmungar, seu amado segundo filho, um inconformismo que disfarçava magistralmente de todos, seus irmãos, sua mãe, a vó Mimosa, tantos outros e, sobretudo, Deus Pai, Jesus Cristo, Maria, nos quais acreditava tanto e tinha uma intimidade tão intensa como se dividisse, com eles, o espaço de seu apartamento.

Mas, por certo, estará vigilante, pelos seus, por nós, por todos os parentes, pelos amigos. Não tenham dúvida, ela não se conformará como o rico que pediu a Deus permitir que Lázaro avisasse seus parentes que o inferno existia. Com certeza, ela encherá tanto a paciência de Deus Pai que Ele a permitirá, sim, vir visitar-nos para dizer: o céu existe, o inferno também, façam tudo direitinho para virem para cá, para o céu, para a eternidade, onde estamos.

A Rede Vida perdeu uma fiel telespectadora. O Céu ganhou uma atriz, estrela de primeira grandeza.

Se não crêssemos nisto, como diz São Paulo, vã seria nossa fé.

Até breve, mãe! Até breve vó Edy.

Luiz Eduardo Caminha,
Ratones, Floripa, 05.06.2009

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Nova crônica

Uma nova ética na política

Luiz Eduardo Caminha

Ratones, Florianópolis, 13.05.2009


Na década de 1980, Chico Anísio criou o deputado Justo Veríssimo, seu único personagem político. Com ele, Chico fazia uma crítica social e, nas evasivas, criticava uma nova postura ética subjugada pelo corporativismo e pela corrupção. Justo Veríssimo era a caricatura do político imoral e aético chegado à armações e traquinagens. Qualquer semelhança era mera coincidência”.


Hoje, aquela caricatura parece real. Não são poucos os que utilizam, do povo, apenas e tão somente o voto para se eleger. A partir daí, divorciam-se do eleitor, tornam-se narcisistas e egocêntricos, criando, ao redor de seu umbigo uma órbita de favorecimentos pessoais ou que visam os seus apaniguados - desde que destes também tirem alguma vantagem.


Para Justo Veríssimo, o campo de atuação era aquele minado pelas falcatruas que definia como um novo regime político chamado “corruptocracia”. Ficou célebre seu discurso de lançamento deste novo regime num hipotético país chamado “Corruptolândia”, cuja capital era Corruptília”. Reparam a semelhança? Pois é mera coincidência com os tempos atuais:

“É com emoção e orgulho que me dirijo a esta constelação de ladrões, larápios, ladravazes, lalaus, especulatários, estelionatários e safados dos vários sexos hoje assumidos e conhecidos. Não estou querendo lisonjear os colegas de arrumação e locupletação...”, e por aí afora.


O emérito deputado (assim seria chamado hoje em dia, não?) cunhou dois bordões que ficaram conhecidíssimos: “Eu quero que o pobre se exploda” e “Pobre é que tem mania de ser honesto”. Foi fácil, depois, amplia-lo para os eleitores em geral: “O povo que se exploda”.


Pois agora, o nobre e douto (não é assim o tratamento?) deputado Sérgio Ivan Moraes (PTB/RS) resolveu plagiar Justo Veríssimo. Moraes foi nomeado relator, pelo Conselho de Ética da Câmara, no processo de falta de decoro parlamentar movido contra o deputado Edmar Moreira (MG), aquele do castelo de 25 milhões de reais, por suposto desvio de verbas indenizatórias de seu gabinete para pagar empresa de sua propriedade. Corre contra ele também um Processo no Supremo Tribunal de Justiça por sonegação de INSS – descontava dos empregados e não recolhia ao governo.


Nesta condição de relator Moraes, no alto de sua prepotência e divorciado do clamor popular, emitiu um juízo antecipado do colega: “estão querendo transformar o Deputado Edmar Moreira em “boi de piranha”. Inspirado na lide do tropeiro centro-oestino brasileiro, imprime uma nova dimensão ditada pelo corporativismo: a ética da boiada. Esquece que na ética do tropeiro o boi de piranha é sangrado e morto. Sacrfica-se um boi para as famintas piranhas, mas salva-se a boiada.


Não contente, Moraes ainda invade o mundo da desfaçatez, da indecência, imoralidade, da sacanagem mesmo, do caricato Justo Veríssimo, deixando no ar a fumaça e o cheiro de podridão que estamos cansados de ver e sentir em atos e arrumações de inúmeros iluminados de Brasília – ou seria Corruptília?


Instado pela imprensa e fiel à cartilha de Justo Veríssimo, Moraes pronuncia seu édito de imperador da indecência: “Estou pouco me lixando para a opinião pública” ou fazendo paralelo ao bordão:“O povo que se lixe”. Foi mais além. Em resposta à imprensa que o fustigava cunhou um novo bordão que pecha seus eleitores de burros: “Vocês batem, batem e a gente se reelege”.


O mais deplorável aconteceu na tarde desta quarta-feira. Reunidos, a maioria dos membros do Conselho de Ética e lideranças de partidos aliados, tentavam minimizar as declarações de Moraes, protegendo-o sob o manto do corporativismo, mesmo que o próprio tenha considerado infeliz a sua declaração, embora deixasse claro que não a retirava. O que importa, para eles, a ética na política? Que se danem todos que a defendem. Que se lixe o povo. Vivas à corporação!


A reação do Presidente do Conselho de Ética da Câmara, deputado José Carlos Araújo (PR-BA), não podia ser outra: usando da prerrogativa que lhe dá o cargo, destituiu o relator, nomeando o deputado Nazareno Fonteles (PT-PI) para substituí-lo.


Acabou? Não! Com a empáfia de um “cara de pau” e certo da impunidade que campeia neste Brasil, Moraes vai recorrer ao STF apelando para um Mandado de Segurança que lhe permita retomar o cargo. Ético seria se Sua Excelência, o nobre deputado (sim, porque ele continua sendo uma excelência e nobre) procurasse o STF, com a mesma vontade, a fim de esclarecer as dúvidas que pairam sobre ele nos processos que lá correm contra ele desde os tempos em que foi Prefeito de Santa Cruz do Sul.. Mas isto é outra história. De acordo com o corporativismo e com a prática tropeira, agora denominada ética da boiada, é “coisa pra boi dormir”. Só que salva-se boi e boiada e que morra o povo, transfigurado em famélicas piranhas. Dá para aguentar?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Os cães e gatos abandonados

Prezados Amigos,

Esta crônica é dedicada à uma prima, Eleonora Campos Schlemper Mendonça, bióloga, moradora, como eu, dos Ratones, que além de suas atividades profissionais e domésticas, ainda se dedica à árdua missão de tirar das ruas os animais de estimação (especialmente cachorros) que alguns desavisados, mal intencionados e irresponsáveis "donos" (ou seriam carrascos?) insistem em abandonar em nosso bairro e em outros bairros de Floripa.

Prendam suas cabritas

Nosso matuto tem algumas tiradas filosóficas, baseadas no que observa da vida, que são sensacionais. “Prendam suas cabritas que meu cabrito tá solto” é uma delas. O conselho busca eximir de culpa o filho adolescente, com os hormônios sexuais a mil, que não pode ver um “rabo de saia”, sem que não se enrabiche atrás! Daí, como diz o popular: “criança que faz criança, não é mais criança!”, é muito claro o conselho do matuto aos pais das moçoilas namoradeiras: Cuidem de suas filhas porque meu filho tá solto. Se algo acontecer não tenho culpa.

Assim como não há cantor que faça sucesso sem que haja quem o escute, também não há cantada – por melhor que seja – que termine numa cama sem que haja a conivência de quem é cantada ou cantado.
Também é assim no reino animal. Um cabrito só cobre uma cabrita se esta der o sinal – conivente ou não – de que está no cio. O mesmo se dá com cães, gatos, e todos os outros animais, à exceção dos símios que, neste aspecto, parecem seguir a cartilha sexual do bicho homem: bobeou? Babau!

Fujo deste intróito para adentrar ao pacato vilarejo onde vivo, cá na região norte de Florianópolis, no bairro rural – melhor, distrito - conhecido por Ratones.

Nosso distrito passou a ser desova de filhotes de cachorros, fruto de escapulidas de alguma cadela de raça, ou o destino de cães e gatos cujos donos, por pura irresponsabilidade, resolveram deles dar cabo seja por que a “madame” aborreceu-se com o pobre animal, seja por um casório desfeito, seja pela mudança de uma casa para um apartamento, ou outro motivo qualquer. E creiam, há muitos! Isto sem contar os que são jogados do alto de uma ponte, em um saco qualquer, nos diversos ribeirões que irrigam nossa paradisíaca ilha - um ato covarde e selvagem próprio de ignominiosa deturpação de alguns espécimes de nossa raça humana. O mais comum, dentre tantos, é a desova de filhotes de 2 a 6 meses – coitadinhos! – nascidos de uma cadela de pura raça com um vira-lata qualquer ou com um belo espécime de outra raça que, vendo-a à rua, depois de uma escapadela, acoita-a no cio e, acaba por, digamos, fazer-lhe mal – ou bem, sei lá!!!
Às vezes, a ninhada é um mimo. Outras, uns bichinhos vira-latas não tão jeitosos, embora quando ainda bebês – é assim que se diz? – pareçam todos uns amores.

O que me dá nos nervos é a desfaçatez, a irresponsabilidade, a selvageria - seja lá que nome se dá - destes ex-donos inescrupulosos e irresponsáveis. Não cuidam de seus bichos – ditos de estimação! Pois eu digo: estimação os cambau!!! – e quem paga o pato, além dos filhotes, é uma comunidade que nada tem a ver com estes energúmenos cidadãos de araque.

Inconformados com a traição de sua estimada cadela impõem à sua indesejável ninhada um destino cruel: o abandono – isto se não tiverem alguns filhinhos pudicos que resolvem vê-los crescer, “só prá ver no que vão dar”! Se forem mimosinhos, procuram parentes e amigos para presentear. Se forem feinhos – e muitos o serão – condenam-nos às ruas, à própria sorte, se é que pode se chamar a isto de sorte!. Deveriam ser presos!

Vai daí que ouso sugerir a esta corja de malandros:

1 - se você quer dar fim a um de seus bichos, telefone ou procure as inúmeras associações de proteção a animais abandonados – tem gente na fila esperando para adotar um bicho destes;

2 - se não quiser uma ninhada indesejada, providencie a castração de sua cadela ou bichana;

3 – se ainda assim não for de seu agrado, doe o bichinho para alguém porque você está entre aqueles que não tem a menor capacidade de assumir uma responsabilidade destas. Cuide apenas de seus filhos, que já é muito!

Agora se nada disto servir, siga o conselho do matuto: amarre sua cabrita (ou cadela, ou gata, ou o bicho que o carregue) porque tá cheio de cabrito solto e nós não temos que estar consertando um ato que é fruto de sua omissão.

Nem nós, nem os bichos merecem isto! Tá certo, seu coió?!

Luiz Eduardo Caminha
Floripa, Ratones, 10.11.2008

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Crônicas dum mané!!!

Crônicas dum mané!

Meus amigos,

Esta crônica surgiu depois que meu amigo João Braz da Silva, de Blumenau, me enviou o seguinte e-mail:


MEUS AMIGOS.

DENTRO DA VELHA MÁXIMA DE QUE “JBS TAMBEM É CULTURA”, ANEXO DADOS INTERESSANTES SOBRE CULINÁRIA, MAIS ESPECIFICAMENTE SOBRE O FAMOSO BACALHAU.

Abraços

Braz


Curiosidades sobre o BACALHAU...

Os peixes que são transformados em bacalhau

São cinco os peixes transformados em bacalhau (veja também Fotografias com os peixes, os respectivos tipos salgados e secos, e as formas de corte.)


O primeiro é o Cod Gadus Morhua, o Bacalhau do Atlântico Norte, o legítimo bacalhau;

A seguir o Saithe, o Ling e o Zarbo, que também são peixes salgados e secos.

O quinto peixe é o Cod Gadus Macrocephalus , o Bacalhau do Pacífico
ou do Alaska.



Portanto, fica claro o seguinte:

"Não existe em todo o mundo um peixe denominado Bacalhau, e sim a forma de sua conservação: peixe salgado !".


Até aqui foi o e-mail de meu amigo Braz!





Inconformado com tamanho assinte cultural e gastronômico resolvi colocar na tela de meu computador, utilizando-me daquela ferramenta chamada WORD, que o Bill nos disponibilizou para substituir o fantástico Fácil (lembram dele? Um editor de texto - o primeiro do Brasil - criado em Blumenau). Pois então tá! Aí vai a crônica para o deleite de quem aprecia uma boa história dos manézinhos da ilha (Floripa, é claro!).


NOTAS PRELIMINARES

1 - Apenas para efeito de compreensão da pronúncia do manézinho, tomei a licença de acentuar as palavras paroxítonas.
2 - Da mesma forma, o manézinho não pronuncia a letra r ao final dos verbos fazendo tônica a última sílaba.
3 – Nas expressões em “manezês” tomei a liberdade de justapor um número para explicar seu significado. Ao fim da crônica acrescentei um pequeno dicionário destas expressões.
4 – Finalmente uma dedicatória: à minha Avó Mimosa, minha mãe Edy, à tia Quita, aos tios Ernani e Zilma, aos primos Bruno e Iracema, à tia Maróca, ao Elsinho e a outros tantos manézinhos citados ou esquecidos, gente com quem aprendi muitas das expressões aqui contidas. Ah! E ao meu amigo Braz, afinal sem seu e-mail esta estória não aconteceria.
O resto foi tentar expressar o jeito de falar dos manézinhos de Floripa. Perdoem-me, portanto, se não estiver de acordo com sua simplicidade, alegria e jeito ligeiro de se expressar.

Bem, agora chega de explicações, embromações, e vamos à crônica, senão vocês enjoam e acabam ficando por aqui.



Tás tolo é?

Ói genti, é u siguinti. Quando eu recibi u i-meiu du mô amigu Braz, lá di Blumenau – ô terrinha di genti galega, não? Parece tudu uns caneco di chopi. Tudu loirinho! – me arrepiô us cabelu. Quase nem acreditei. Pois num é qui essi i-meiu – porqui será que tem essi nomi, hein? Pareci cois di gagu. Purque não é só meiu? Tem qui sê i-meiu? I si fossi intêro? Seria i-intêro? Vai vê qui é purquê num leva selo esta jóça(1)! Mas ô dizia qui essi i-meiu mi dexô maluco. Fiquei doidu. Puto memo! Cheguei até a sortá um palavrão daquelis. Sabi? Aquele qui tem as inicial pqp. To iscrevendo i não possu dizê um palavrão dessi aqui né, ô! Si não num fica nada bem! Vai sê um pegapacapá(2)!

Lá u Braz dizia qui u tal du bacalhau non é bacalhau? Pódi issu? Sabi comé(3) quele si chama? COD GADUS MORHUA! Ô sei. Tu também vaish dizê Códuquê? É issu memo qui tu tá leno(4). COD GADUS MORHUA. Agora ô vô dize u nomi feiu. Ah! Vô memo! Não güento(5) issu. Puta quius pariu!!!! Ô passei a vida intêra cumendu essi bichu i agora u Braz vem mi dizê qui ô non cumi bacalhau, sô! Ô cumi foi essi tal di Cód di não sei quê? Ô nomizinhu impombadu(6), não? Vô até iscrevê ele di novu, cumódi(7) vê si aprendi: COD GADUS MORHUA. Issu é uma sacanagi. Ói, ió, ió! Vai ti cagá sô amarelo!(8) Óia, Braz! Bem qui tu pudia mi deixá vivê u restu di minha vidinha sem sabê dessi ingano. Sô viadinhu!

Mas u Braz non é di menti, co sei. Quandu eli diz é purque é verdade. Eli é daquela turma do Sino-Saimão(9) . I eu acreditu nessa turma.

Pió(10) ô, non é issu! Digerinho, digerinho(11), mi passô pela cabeça quanta gente si inganô cum essi bichinhu. A minha tia Quita purexemplu(12). Lá du Riberão! Tadinha dela! Passô a vida intêra preparando nus dia di festa u tal di bacalhau – é purque bacalhau – ou essa pomboca(13) dessi nomi – só si cumia im dia di festa. I agora? Bateu a caçuleta(14) e morreu inganada. Tadinha. Vô telefoná pru João José, pru Carlinho, pra Lili i prá Gracinha, qui são fios da tia Quita, só pra contá prá elis issu. Comé qui vamu recuperá essi prejuízu?

Ainda bem qui a tia Quita si fartava memo era im cumê(15) cocoroca, canhanha, berbigão i camarão, cum pirão di nailo i arroz, na épuca qui camarão nu Riberão dava di cambulhão(16) . Ah! I tainha, nu invernu com pirão di fejão.

Ô mô pai não tem probrema. Si foi tamém. Qui Deus o tenha, mô quiridu! Mas non gostava di pêxe. Daí saiu nu lucru. Ou vai vê qui nem tantu. Lembru qui eli gostava di fazê um agradinhu a alguns parente. Môs avósh, môs tiush. Passava nu Mercado e comprava uns quilinhu du bichu pra dá di presenti. Ô(17) , pelu menus, nunca di(18) essi bichu prá ninguém, né! Mas qui cumi, cumi. I tamém tô nu prejú. A minha mãe tomém, si istrepô essi tempu todinho.

Mô Deus du céu, mo fio. Só di pensá na muntuêra(19) di genti qui cumeu essa praga inganado. Dá até arrepiu na ispinha. Dijaôje(20), dispois dessa nutíça(21) ô fiquei pensando nu mô tio Ernani. Gostava dum bacalhau quera(22) dincardi(23). Tadinho. Ô mô pombo(24)! Mô quiridu padrinho. Já si foi tamém e non disconfiô qui tava inganado u tempu todu. Tomém tem u siguinti: si eli sabe antes, quandu era vivinho da silva, ia ficá cum cara di cachorro mijando na chuva(25), di tanta vergonha qui passô cunvidandu genti pra cumê u bacalhau da tia Zilma.

I u Bruno? a Iracema? U Tiu Élson? A tia Dalva? O Elsinho tadinho, qui quandu ainda era vivu mi mandô uma caxa intêra di presente?

Até im Blumenau! O Arvaru Bruqi! Qui todu u derradêro du anu faiz um dessi bichu di incardi prá turma do Terça a Todu Vapô, lá du Bela Vista? Será qui todu mundu tá inganado? Aqui im Flonópis nunca ninguém viu fala du tal di Cód não sei quê. Todu mundu pensa qui bacalhau é bacalhau. Qui nem eu, até qui recibi essi i-meiu digraçado(26).

Puta quius pariu, Braz. Tô até cum dô di cabeça. Di tantu pensá. Pópará! Pópará pur aí(27)! Qués sabê? Mofas(28), sô istepô(29) ! Côa pomba na balaia(30) . Ô é qui non vô mais fica ajojado(31) cum issu não. Vás dormi cos bilro na almofada(32) si tavas pensandu em mi incomodá com uma nutíça dessa. Tás tolo é?

Essa coza(33) já passô dus limiti. Di tantu ficá aqui incasquitado(34) acabei me cortandu cum caniveti. Tava dicascando(35) umas ostra e óia u qui deu essi distraimento(36) . Cortei us dedu. I corte cum coza du mar verte uma sangüêra danada. Ainda bem qui a muié, a Seluta, tinha pópatapataio(37) , qui istancô a sangüêra toda. Vi jeitu di tê qui i pru hospitali.

Essa tua istória vai dá qui falá. Cumé cus homi agora vão chamar a periquita quandu não tá bem lavada? Chêru di quê? Era di bacalhau! Agora mi diz. Tu achas qui elis vão dizê qui a periquita da fulana ou da beltrana tá cum chêru di COD GADUS MORHUA? Arrombassi ô! Dessi di langa(38) .

Achu bom é fica puraqui. Tá bom! Tá bom! Si u qui cumi foi essa coza qui tá aí, Deus mi livri i mi guardi. Já minervei(39) ! Võ é mi acarmá qui non possu mistressá. Vô é dá di mamá prá inchada(40) ! Ô sempre pensei qui fossi bacalhau, memo! Prá mim vai sê sempri bacalhau i prontu!

Luiz Eduardo Caminha
Floripa, 26.09.2008


Prumódintendê: (De maneira a entender)

Apenas para efeito de compreensão da pronúncia do manézinho, mantive os acentos nas palavras paroxítonas.
Da mesma forma o manézinho não pronuncia a letra r (erre) ou a letra u final das conjugações verbais fazendo tônica a última sílaba.

1 - Jóça - coisa
2 - Pegapacapá – “pegar para capar”, diz-se de uma coisa que vai causar muita confusão.
3 – Comé – Como é.
4 – Leno – lendo
5 – Guento – agüento.
6 – Impombadu – metido, exibido, pomposo.
7 – Cumódi – de maneira a
8 - Sô amarelo – xingamento que significa: seu fraco, seu doente.
9 – Sino-Saimão - Signo de Salomão. Também Estrela de Davi.
10 – Pió – pior
11 – Digerinho – ligeirinho
12 – Purexemplu – Por exemplo
13 – Pomboca – droga, coisa sem valor, também: lamparina cônica à querosene. Também é usado como nome do órgão genital feminino – o mesmo que pomba.
14 – Bateu a caçuleta – o mesmo que bateu as botas, bateu as canelas – Morreu.
15 - Cumê – comer
16 – Cambulhão – em grande quantidade
17 – Ô – Eu.
18 - Nunca di – nunca dei.
19 – Muntuêra – aos montes, em grande quantidade.
20 - Dijaôje – ainda há pouco, ainda agora, hoje mesmo.
21 - Nutíça – notícia
22 – Quera - forma sincopada de “que era”.
23 – Dincardi – de encardir – diz-se de uma pessoa que é fanática, gosta demais ou aprecia muito alguma coisa “gostava de bacalhau dincardi” = gostava demais de bacalhau ou era fanático por bacalhau. Também é usado para significar algo fantástico.
24 – Mô pombo – o mesmo que mô quirido. Expressões carinhosas que significam “meu querido”.
25 - Cum cara di cachorro mijando na chuva – envergonhado.
26 – Digraçado – desgraçado.
27 – Pópará – Pode parar.
28 – Mofas – esperas, cansas.
29 – Istepô – usualmente é usada para dizer que uma pessoa não vale nada. Quando usada com amigos adquire uma forma carinhosa de tratamento, para significar que a pessoa vive fazendo troça, brincadeiras.
30 - Mofas, côa pomba na balaia – (o mesmo que mofas, com a pomba no balaio) - em meados do século passado, as dietas para doentes costumavam apresentar uma sopa de carne de pombos. Os vendedores de pombos compareciam ao mercado municipal de Florianópolis para vende-los. Usavam um balaio de vime ou balaio caiçara (feito pelos índios carijós e pelos pescadores) para manter os pombos presos. A expressão “mofar côa pomba na balaia” era dita àqueles que não conseguiam vender seus pombos depois de uma manhã inteira de feira. Passou então a ser usada pelos manézinhos para expressar que “uma pessoa pode esperar a vida inteira que aquilo que deseja nunca vai acontecer”.
31 – Ajojado – caído, cabisbaixo.
32 - Dormi cos bilro na almofada – cansar de esperar.
33 – Coza – coisa
34 - Incasquitado – ficar cismado, preocupar-se.
35– Dicascando – descascando.
36 – Distraimento – distração.
37 – pópatapataio – Pó para tapar talho ou corte, nome que o manézinho dava para a “sulfa em pó”, antigamente muito usada em curativos.
38 - Dessi di langa – ganhar uma disputa com grande vantagem, levar a melhor.
39 – minervei – me enervei, fiquei nervoso, me irritei.
40 - Dá di mamá prá inchada – ficar no ócio, na preguiça, sem fazer nada. Diz-se também daquele que é preguiçoso.