caminha, caminhando, poetando, vivendo como Deus me permite viver. É assim que vou. É desse jeito que sou. E aqui vão: notícias mensagens, poesias, crônicas, artigos, enfim, tudo que gosto e sou, parte dos caminhos que este caminhante procura seguir. Apenas isto!

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Crônicas dum mané!!!

Crônicas dum mané!

Meus amigos,

Esta crônica surgiu depois que meu amigo João Braz da Silva, de Blumenau, me enviou o seguinte e-mail:


MEUS AMIGOS.

DENTRO DA VELHA MÁXIMA DE QUE “JBS TAMBEM É CULTURA”, ANEXO DADOS INTERESSANTES SOBRE CULINÁRIA, MAIS ESPECIFICAMENTE SOBRE O FAMOSO BACALHAU.

Abraços

Braz


Curiosidades sobre o BACALHAU...

Os peixes que são transformados em bacalhau

São cinco os peixes transformados em bacalhau (veja também Fotografias com os peixes, os respectivos tipos salgados e secos, e as formas de corte.)


O primeiro é o Cod Gadus Morhua, o Bacalhau do Atlântico Norte, o legítimo bacalhau;

A seguir o Saithe, o Ling e o Zarbo, que também são peixes salgados e secos.

O quinto peixe é o Cod Gadus Macrocephalus , o Bacalhau do Pacífico
ou do Alaska.



Portanto, fica claro o seguinte:

"Não existe em todo o mundo um peixe denominado Bacalhau, e sim a forma de sua conservação: peixe salgado !".


Até aqui foi o e-mail de meu amigo Braz!





Inconformado com tamanho assinte cultural e gastronômico resolvi colocar na tela de meu computador, utilizando-me daquela ferramenta chamada WORD, que o Bill nos disponibilizou para substituir o fantástico Fácil (lembram dele? Um editor de texto - o primeiro do Brasil - criado em Blumenau). Pois então tá! Aí vai a crônica para o deleite de quem aprecia uma boa história dos manézinhos da ilha (Floripa, é claro!).


NOTAS PRELIMINARES

1 - Apenas para efeito de compreensão da pronúncia do manézinho, tomei a licença de acentuar as palavras paroxítonas.
2 - Da mesma forma, o manézinho não pronuncia a letra r ao final dos verbos fazendo tônica a última sílaba.
3 – Nas expressões em “manezês” tomei a liberdade de justapor um número para explicar seu significado. Ao fim da crônica acrescentei um pequeno dicionário destas expressões.
4 – Finalmente uma dedicatória: à minha Avó Mimosa, minha mãe Edy, à tia Quita, aos tios Ernani e Zilma, aos primos Bruno e Iracema, à tia Maróca, ao Elsinho e a outros tantos manézinhos citados ou esquecidos, gente com quem aprendi muitas das expressões aqui contidas. Ah! E ao meu amigo Braz, afinal sem seu e-mail esta estória não aconteceria.
O resto foi tentar expressar o jeito de falar dos manézinhos de Floripa. Perdoem-me, portanto, se não estiver de acordo com sua simplicidade, alegria e jeito ligeiro de se expressar.

Bem, agora chega de explicações, embromações, e vamos à crônica, senão vocês enjoam e acabam ficando por aqui.



Tás tolo é?

Ói genti, é u siguinti. Quando eu recibi u i-meiu du mô amigu Braz, lá di Blumenau – ô terrinha di genti galega, não? Parece tudu uns caneco di chopi. Tudu loirinho! – me arrepiô us cabelu. Quase nem acreditei. Pois num é qui essi i-meiu – porqui será que tem essi nomi, hein? Pareci cois di gagu. Purque não é só meiu? Tem qui sê i-meiu? I si fossi intêro? Seria i-intêro? Vai vê qui é purquê num leva selo esta jóça(1)! Mas ô dizia qui essi i-meiu mi dexô maluco. Fiquei doidu. Puto memo! Cheguei até a sortá um palavrão daquelis. Sabi? Aquele qui tem as inicial pqp. To iscrevendo i não possu dizê um palavrão dessi aqui né, ô! Si não num fica nada bem! Vai sê um pegapacapá(2)!

Lá u Braz dizia qui u tal du bacalhau non é bacalhau? Pódi issu? Sabi comé(3) quele si chama? COD GADUS MORHUA! Ô sei. Tu também vaish dizê Códuquê? É issu memo qui tu tá leno(4). COD GADUS MORHUA. Agora ô vô dize u nomi feiu. Ah! Vô memo! Não güento(5) issu. Puta quius pariu!!!! Ô passei a vida intêra cumendu essi bichu i agora u Braz vem mi dizê qui ô non cumi bacalhau, sô! Ô cumi foi essi tal di Cód di não sei quê? Ô nomizinhu impombadu(6), não? Vô até iscrevê ele di novu, cumódi(7) vê si aprendi: COD GADUS MORHUA. Issu é uma sacanagi. Ói, ió, ió! Vai ti cagá sô amarelo!(8) Óia, Braz! Bem qui tu pudia mi deixá vivê u restu di minha vidinha sem sabê dessi ingano. Sô viadinhu!

Mas u Braz non é di menti, co sei. Quandu eli diz é purque é verdade. Eli é daquela turma do Sino-Saimão(9) . I eu acreditu nessa turma.

Pió(10) ô, non é issu! Digerinho, digerinho(11), mi passô pela cabeça quanta gente si inganô cum essi bichinhu. A minha tia Quita purexemplu(12). Lá du Riberão! Tadinha dela! Passô a vida intêra preparando nus dia di festa u tal di bacalhau – é purque bacalhau – ou essa pomboca(13) dessi nomi – só si cumia im dia di festa. I agora? Bateu a caçuleta(14) e morreu inganada. Tadinha. Vô telefoná pru João José, pru Carlinho, pra Lili i prá Gracinha, qui são fios da tia Quita, só pra contá prá elis issu. Comé qui vamu recuperá essi prejuízu?

Ainda bem qui a tia Quita si fartava memo era im cumê(15) cocoroca, canhanha, berbigão i camarão, cum pirão di nailo i arroz, na épuca qui camarão nu Riberão dava di cambulhão(16) . Ah! I tainha, nu invernu com pirão di fejão.

Ô mô pai não tem probrema. Si foi tamém. Qui Deus o tenha, mô quiridu! Mas non gostava di pêxe. Daí saiu nu lucru. Ou vai vê qui nem tantu. Lembru qui eli gostava di fazê um agradinhu a alguns parente. Môs avósh, môs tiush. Passava nu Mercado e comprava uns quilinhu du bichu pra dá di presenti. Ô(17) , pelu menus, nunca di(18) essi bichu prá ninguém, né! Mas qui cumi, cumi. I tamém tô nu prejú. A minha mãe tomém, si istrepô essi tempu todinho.

Mô Deus du céu, mo fio. Só di pensá na muntuêra(19) di genti qui cumeu essa praga inganado. Dá até arrepiu na ispinha. Dijaôje(20), dispois dessa nutíça(21) ô fiquei pensando nu mô tio Ernani. Gostava dum bacalhau quera(22) dincardi(23). Tadinho. Ô mô pombo(24)! Mô quiridu padrinho. Já si foi tamém e non disconfiô qui tava inganado u tempu todu. Tomém tem u siguinti: si eli sabe antes, quandu era vivinho da silva, ia ficá cum cara di cachorro mijando na chuva(25), di tanta vergonha qui passô cunvidandu genti pra cumê u bacalhau da tia Zilma.

I u Bruno? a Iracema? U Tiu Élson? A tia Dalva? O Elsinho tadinho, qui quandu ainda era vivu mi mandô uma caxa intêra di presente?

Até im Blumenau! O Arvaru Bruqi! Qui todu u derradêro du anu faiz um dessi bichu di incardi prá turma do Terça a Todu Vapô, lá du Bela Vista? Será qui todu mundu tá inganado? Aqui im Flonópis nunca ninguém viu fala du tal di Cód não sei quê. Todu mundu pensa qui bacalhau é bacalhau. Qui nem eu, até qui recibi essi i-meiu digraçado(26).

Puta quius pariu, Braz. Tô até cum dô di cabeça. Di tantu pensá. Pópará! Pópará pur aí(27)! Qués sabê? Mofas(28), sô istepô(29) ! Côa pomba na balaia(30) . Ô é qui non vô mais fica ajojado(31) cum issu não. Vás dormi cos bilro na almofada(32) si tavas pensandu em mi incomodá com uma nutíça dessa. Tás tolo é?

Essa coza(33) já passô dus limiti. Di tantu ficá aqui incasquitado(34) acabei me cortandu cum caniveti. Tava dicascando(35) umas ostra e óia u qui deu essi distraimento(36) . Cortei us dedu. I corte cum coza du mar verte uma sangüêra danada. Ainda bem qui a muié, a Seluta, tinha pópatapataio(37) , qui istancô a sangüêra toda. Vi jeitu di tê qui i pru hospitali.

Essa tua istória vai dá qui falá. Cumé cus homi agora vão chamar a periquita quandu não tá bem lavada? Chêru di quê? Era di bacalhau! Agora mi diz. Tu achas qui elis vão dizê qui a periquita da fulana ou da beltrana tá cum chêru di COD GADUS MORHUA? Arrombassi ô! Dessi di langa(38) .

Achu bom é fica puraqui. Tá bom! Tá bom! Si u qui cumi foi essa coza qui tá aí, Deus mi livri i mi guardi. Já minervei(39) ! Võ é mi acarmá qui non possu mistressá. Vô é dá di mamá prá inchada(40) ! Ô sempre pensei qui fossi bacalhau, memo! Prá mim vai sê sempri bacalhau i prontu!

Luiz Eduardo Caminha
Floripa, 26.09.2008


Prumódintendê: (De maneira a entender)

Apenas para efeito de compreensão da pronúncia do manézinho, mantive os acentos nas palavras paroxítonas.
Da mesma forma o manézinho não pronuncia a letra r (erre) ou a letra u final das conjugações verbais fazendo tônica a última sílaba.

1 - Jóça - coisa
2 - Pegapacapá – “pegar para capar”, diz-se de uma coisa que vai causar muita confusão.
3 – Comé – Como é.
4 – Leno – lendo
5 – Guento – agüento.
6 – Impombadu – metido, exibido, pomposo.
7 – Cumódi – de maneira a
8 - Sô amarelo – xingamento que significa: seu fraco, seu doente.
9 – Sino-Saimão - Signo de Salomão. Também Estrela de Davi.
10 – Pió – pior
11 – Digerinho – ligeirinho
12 – Purexemplu – Por exemplo
13 – Pomboca – droga, coisa sem valor, também: lamparina cônica à querosene. Também é usado como nome do órgão genital feminino – o mesmo que pomba.
14 – Bateu a caçuleta – o mesmo que bateu as botas, bateu as canelas – Morreu.
15 - Cumê – comer
16 – Cambulhão – em grande quantidade
17 – Ô – Eu.
18 - Nunca di – nunca dei.
19 – Muntuêra – aos montes, em grande quantidade.
20 - Dijaôje – ainda há pouco, ainda agora, hoje mesmo.
21 - Nutíça – notícia
22 – Quera - forma sincopada de “que era”.
23 – Dincardi – de encardir – diz-se de uma pessoa que é fanática, gosta demais ou aprecia muito alguma coisa “gostava de bacalhau dincardi” = gostava demais de bacalhau ou era fanático por bacalhau. Também é usado para significar algo fantástico.
24 – Mô pombo – o mesmo que mô quirido. Expressões carinhosas que significam “meu querido”.
25 - Cum cara di cachorro mijando na chuva – envergonhado.
26 – Digraçado – desgraçado.
27 – Pópará – Pode parar.
28 – Mofas – esperas, cansas.
29 – Istepô – usualmente é usada para dizer que uma pessoa não vale nada. Quando usada com amigos adquire uma forma carinhosa de tratamento, para significar que a pessoa vive fazendo troça, brincadeiras.
30 - Mofas, côa pomba na balaia – (o mesmo que mofas, com a pomba no balaio) - em meados do século passado, as dietas para doentes costumavam apresentar uma sopa de carne de pombos. Os vendedores de pombos compareciam ao mercado municipal de Florianópolis para vende-los. Usavam um balaio de vime ou balaio caiçara (feito pelos índios carijós e pelos pescadores) para manter os pombos presos. A expressão “mofar côa pomba na balaia” era dita àqueles que não conseguiam vender seus pombos depois de uma manhã inteira de feira. Passou então a ser usada pelos manézinhos para expressar que “uma pessoa pode esperar a vida inteira que aquilo que deseja nunca vai acontecer”.
31 – Ajojado – caído, cabisbaixo.
32 - Dormi cos bilro na almofada – cansar de esperar.
33 – Coza – coisa
34 - Incasquitado – ficar cismado, preocupar-se.
35– Dicascando – descascando.
36 – Distraimento – distração.
37 – pópatapataio – Pó para tapar talho ou corte, nome que o manézinho dava para a “sulfa em pó”, antigamente muito usada em curativos.
38 - Dessi di langa – ganhar uma disputa com grande vantagem, levar a melhor.
39 – minervei – me enervei, fiquei nervoso, me irritei.
40 - Dá di mamá prá inchada – ficar no ócio, na preguiça, sem fazer nada. Diz-se também daquele que é preguiçoso.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A B S O L U T O
Luiz Eduardo Caminha

Há algo,
Por mais que tente,
Entender,
Não consiga.

Algo sublime,
Maior que meu eu,
Acima de mim.

Espaço sem fronteiras,
Unidade sem limites,
Síntese do todo,
Universo sem fim,
Eterna Eternidade.

Há um Alguém,
Absoluto Maior,
Perfeição Maiúscula,
Que não compreendo,
Medroso que sou,
Que busco, admito,
Que sei , existe.

Há um vazio imenso,
Que enche espaços,
Que envolve tudo,
Absolutiza o todo.

Nele,
Deposito meu eu,
Deponho os meus,
Minha fé,
Minhas esperanças.

Há, sim, Alguém,
Que está dentro de mim,
Me ocupa, transporta,
Me envolve.
Alguém que preciso achar!
Está em mim... Eu sei!!!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

De volta....

Queridos amigos,

após uma breve ausência motivada por uns probleminhas de saúde, aqui estou de novo, caminhando, caminhante, escrevendo, escrevente, poetanto e penitente, pedindo escusas pelo lapso de tempo destas últimas postagens.

As borboletas voltaram

Fazia muito tempo que eu não via voar uma borboleta azul. Daquelas, grandes, com dois círculos pretos nas asas como se fossem olhos a perscrutar o mundo, a natureza por onde passam. Aliás, não apenas as azuis, as amarelas, brancas e até aquelas rajadas, alaranjadas, imitando pele de onça-pintada, tão comuns, também estas, há muito que eu não as via.

Sentado na varanda de minha casa, escutando um ou outro piar de passarinhos nas árvores vizinhas, divertindo-me com o toc-toc insistente de um pica-pau de penacho, no tronco de uma antiga figueira, à cata de minúsculas presas para seu sustento, pousei os olhos no portão distante uns 30 metros. Foi de repente, como se saltasse por cima do muro, qual intrusa suspeita, ela apareceu. Uma borboleta azul. Parecia atender ao meu chamado. Veio batendo asas, saltitante, naquele vôo de sobe e desce, vai para um lado, para outro, como se num jeitoso bailado uma atleta olímpica ou, quem sabe, de uma bailarina do balé Bolshoi. Aquelas, onde fios transparentes as fazem voar pelos palcos, como se asas tivessem.

E veio voando, chegando de mansinho, alegre, faceira como menina moça a desfilar para os olhos cobiçosos de supostos pretendentes. Pousou numa folha de hibiscos amarelos. O verde, o amarelo, o azul, compunham uma aquarela pintada pelas mãos de Deus.

Ficou ali um tempo. As asas num movimento lento, delicado e continuo, de abrir e fechar, como se a ajudassem a equilibrar. É! Fazia muito tempo que meus olhos não brilhavam com imagens assim.

O piar triste de um sabiá branco me acordou do transe. Fazia, também, muito tempo que não ouvia o cantar alegre de um sabiá laranjeira. E os sabias brancos, parecem se negar a dobrar. Ficam só piando. Meus pensamentos pareceram uma provocação. Como a me dar satisfação, o sabiá branco resolveu fazer um dobrado. Cantou uma, dobrou duas vezes, dobrou de novo. Agora sim, menino! Estás cantando alegre, exclamei, em êxtase!

Voltei os olhos à borboleta azul. Lá estava. Descansando. Daqui a pouco partiria para outros vôos, outros olhares, outros lugares.

E foi aí que me veio um pensamento: Porque será que as borboletas sumiram? Não conseguia resposta, por mais que tentasse. Bem que meu jardineiro tentou convencer-me. Para ele, que aprendera tudo da profissão com o velho pai, a culpa era dos sagüís e do progresso. É uma mania que tem o pessoal antigo do interior da ilha. Tudo é culpa dos sagüis. Para eles, estes bichinhos sorrateiros, comem os filhotes dos pássaros, ainda indefesos, nos ninhos. Foram eles que espantaram toda a bicharada, os passarinhos, o macaco-prego, os bugios, as aracuãs, para a densa Mata Atlântica, ainda exuberante, em que pese a mão do homem a desferir-lhe contínuos atentados. “São uns peste, dotô!” Dizia em seu falar ligeiro dos manézinhos.

Por mais que eu tentasse argumentar o contrário, nada o convencia. Argumentei que eles não nasceram ali, foram trazidos, multiplicaram-se e tomaram seu espaço. Só comiam os passarinhos por necessidade de sobrevivência e, mesmo assim, só o faziam nas casas aonde ninguém se dispunha a alimentá-los. Não era o nosso caso. Em nossa casa eu nunca vira ou tivera notícia de um sagüi que tenha investido contra um ninho de passarinho.

De fato, os sagüis chegaram à Florianópolis pelas mãos do próprio bicho homem. Na década de 60 era moda importar, do norte, casais destes pequenos e graciosos símios. Eram dóceis, fáceis de domesticar, engraçados. Aquilo virou febre. Até eu tive um. Machinho, a quem chamava Chico, foi meu pai quem o trouxe de uma viagem à Manaus. Morreu. E sua morte foi tão triste que nunca mais quis ter outro. Contraiu uma gripe, fez uma complicação pulmonar e passou seus últimos dias com uma dificuldade atroz para respirar. Fazia carinha de sofrimento. Penso que até chorou. Morreu em minhas mãos. Agonizando, sofrendo, fazendo caretas de dor. Parecia um ser humano.

Mas eu contava da febre que foram os sagüis. Fruto de sua vida a dois, em casais, começaram a aparecer os filhotes. Era preciso aumentar o espaço. Não sabíamos, os ilhéus, os hábitos familiais desta raça. A fêmea, dona do pedaço, tem os machos a seu serviço, inclusive os procriados. Cada fêmea, oito a nove machos. Não deu mais para segurar. Começaram a soltar os bichinhos, eles ganharam as matas e conquistaram seus espaços. Como são mais domésticos, ganharam o lugar de domínio dos macacos pregos, mais ariscos e lépidos. Os bugios, ao contrário, era só fruto da má fama. Nunca estiveram próximo das casas. Sempre guardaram a devida distância. Muito mais selvagens, só eram vistos em bandos, bem dentro da mata. Às vezes, em alguns lugares, se ouviam seus gritos, bem longe.

Pois daí, a culpar os sagüis pela ausência das borboletas, era apenas uma cisma. Talvez para justificar a sana de alguns que adoravam dar pilotadas nos bichinhos, munidos de funda, ou estilingue, como queiram. Havia mais uma incompatibilidade na história que meu jardineiro contava. Os passarinhos, em muitas casas da ilha, tinham voltado ao convívio das famílias que lhes ofereciam alimentos, dispostos em comedouros colocados nos quintais e jardins. Mas, falava alto a segunda hipótese do jardineiro: o progresso. A chegada do homem, com suas casas, destruindo a mata daqueles cerca de 500 metros que separam os morros da ilha de sua orla marítima ou lacustre.

Isto entretanto, não explicava, de todo, a ausência das borboletas. Afinal, muita mata ainda havia. Porque elas não estavam lá? E se estivessem, porque, volta e meia, não vinham para as casas voando fagueiras?

Já que o jardineiro continuava a argumentar contra os sagüis, fiz uma provocação. Chamei sua atenção para a constante presença destes bichinhos nos fundos de nosso quintal. “Sim, o dotô i sua muié vivi dandu comida pra elis!”, foi sua resposta em franco manezês. Foi aí que apontei para a borboleta azul. Ele se espantou . Correu a me explicar que estes bichos traziam sorte para a casa que visitavam. Palavras de seu velho e experiente pai. Alguma coisa de bom, que iria trazer muita alegria deveria, segundo ele, acontecer.

Era fim de tarde. Um bando de gralhas voltava de sua jornada diária fazendo aquela algazarra. A borboleta azul alçou vôo e se foi. Visitar outros lugares. Levar sorte para outras casas. Graciosa, saltitando no ar, tal qual chegara.

Naquela noite pensei muito sobre o que meu jardineiro havia falado. Dia seguinte, acordei bem cedo. Uma raridade para um ser notívago como eu. Algo, no entanto, me chamava a acordar. O sol estava ainda a se espreguiçar. Seus raios matinais pareciam plêiades de braços tentando agarrar as árvores. O céu azul límpido prometia um lindo dia. Um bando de andorinhas sobrevoava o telhado alto do quarto de minha filha. E foi aí que vi. Muitas. Dezenas de borboletas amarelas e brancas. Daquelas pequenas que vivem em bandos. Sobrevoavam elegantes as folhagens baixas do jardim. Em Ratones, pensei, as borboletas são madrugadeiras. Estão aí! Será? Será que sou eu quem tem perdido a oportunidade de vê-las todas as manhãs?

Canários, rolinhas, tico-ticos, ferreirinhas e bico-de-lacres partilhavam, num gorjear contínuo, os comedouros. Um bando de tirivas passou ao alto, enchendo o ar com o som de seu palrar. O toc-toc frenético do pica-pau continuava. Até meus ocasionais visitantes, um casal de papagaios, se fez presente neste dia. A natureza parecia em festa. Fiquei feliz. Fazia tempo que não me sentia tão alegre. Aí pensei: seria a tal sorte, trazida pela borboleta azul? E o sumiço das borboletas?

Nem sei! Sei apenas que voltaram. Prenúncio, quem sabe, da primavera. Bem, os sagüis? Continuam por lá, serelepes e faceiros. Como toda a bicharada.

Luiz Eduardo Caminha,

Ratones, Florianópolis, 20.09.2008

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O dinheiro sobra? Mas a fome mata

O paradoxo da vida em Marte e da fome no mundo...

O 2º. Semestre de 2008 vem tarazendo, em seu bojo, notícias paradoxais e inacreditáveis. As bravatas de Chávez e Morales; a absurda intromissão dos arapongas da Abin, numa negação ao estado de direito; a cara-de-pau destes espiões orwellianos bisbilhotando a maior autoridade do Poder Judiciário; o atentado eleitoral das milícias cariocas, a infindável crise do mercado americano, etecetera. Neste compasso, uma notícia chama-nos à reflexão: a NASA anunciou a possibilidade de ter havido vida em Marte, num passado distante. Foi um "frisson". Ovação geral! Aplausos! Era preciso descobrir, ao menos, uma bactéria, umazinha que fosse para justificar a prosaica missão.

Não quero ir contra os avanços da ciência. Sei muito bem a contribuição trazida pelos projetos espaciais às conquistas tecnológicas. Estaria sendo uma besta se não admitisse a evolução da comunicação entre os povos, da velocidade e transparência nas informações – excluído o lixo – que nos permitiu a internet, o progresso nos transportes, na educação – fora do Brasil, é claro – os avanços na saúde, enfim a evolução dos últimos tempos nas mais diversas áreas da atividade humana.

Entretanto, a missão da Sonda Phoenix traduz uma aberração sem princípios, sem nexo. A simples possibilidade de vida primitiva – uma simples bactéria – no Planeta Vermelho, ampliou a missão por mais 3 semanas ao custo de US$ 2 milhões. O Projeto todo já custou US$420 milhões de dólares. Às custas desta fantástica descoberta, 31 cientistas apresentaram à NASA – que se entusiamou – um planejamento da ordem de US$ 16 bilhões – isto mesmo 16 bilhões – de dólares para a continuidade das explorações do vizinho planeta. O que temos a ver com isto? Vejamos!

Cerca de 820 milhões de pessoas – seres humanos e portanto, vida plena e organizada – vivem o flagelo da fome. Destes, estima-se que 100 milhões, apenas este ano, não escaparão da morte por desnutrição ou outras doenças cuja origem é a falta de comida. O Projeto Phoenix concederia a estes seres humanos, nada menos que alimento suficiente por 15 dias. É pouco? Sim, muito pouco! Serviria, ao menos,para morrerem fartos. Mas se tomarmos todo o dinheiro necessário para realizar o sonho daqueles 31 cientistas veremos outro número. Os recursos afastariam este risco por 8 meses. Mas, o pior vem agora. Os Estados Unidos da América já gastaram U$ 500 bilhões com a imbecilidade da guerra do Iraque. Este montante tiraria do risco de morte esta vida organizada e faminta do planeta Terra por 16,5 anos. Juntos, apenas esses dois paradoxos salvariam cerca de 1,7 milhões de pessoas.

Quer mais? O aumento do custo dos alimentos no mundo faria o mesmo. Ou seja, concederia mais 16,5 anos a estes seres.

Talvez esta seja uma perversa forma de controle populacional, mas que é um paradoxo, lá isto é? 1,7 milhões de pessoas mortas para se provar (ou não) a existência de uma bactéria em Marte. Ou 1,7 milhões de pessoas em troco do lucro gerado pelo aumento dos alimentos no planeta Terra. Não é de mudar de planeta?

P.S.: No momento em que fazia esta reflexão, a FAO - Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação - anuncia que não são mais 820 milhões de famintos no mundo. Este número passou para 927 milhões.

"E Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher Ele os criou" (Gênesis,1 27)

Farrinha

O Brasil não escapa dos gastos paradoxais. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES - financia US$650 milhões para Ferrovias na Bolívia e Colômbia. Na Argentina, Chile, Equador, Paraguai, Venezuela e República Dominicana, o dinheiro brasileiro também financia obras num valor total de US$ 1,3 bilhão. Destes, US$ 954 milhões já foram liberados até março. O BNDES também financiará duas moderníssimas rodovias que cruzarão a Bolívia em direção ao Oceano Pacífico. Enquanto bolivianos transitam em boas rodovias financiadas pelo dinheiro brasileiro, trens se locomovem às custas deste dinheiro na Bolívia e Colômbia, nós, o zé povinho divide espaço entre rodovias esburacadas, ferrovias inexistentes e uma possibilidade cada vez maior de crise no abastecimento de gás.

domingo, 14 de setembro de 2008

Ensaio sobre a Criação

Amigos,

Assim que comecei a escrever este texto, eu pensei fazê-lo uma poesia. Depois virou Ensaio. E aí está, entre ganchos e garranchos, aos trancos e barrancos, este texto-poema, um pouco angústia, do que sinto, senti, ou fui sentindo, na medida em que os versos-semi-versos escapuliam de minha mente e declinavam, como a torrente das cascatas, pela ponta de meus dedos, no teclado de meu computador. Eles não têm nada de rima, de métrica, nem tampouco de estética. Neles, a métrica, a rima, a estética que me valeram foram aquelas que a própria Criação faz perceber, seja em nossas mentes, seja em nosso olhar.

Eu os dedico à escritora e poeta Lígia Leivas, não somente porque está assumindo este desafio de presidir a Academia Sulbrasileira de Letras, mas sobretudo, por sua incontida e incansável luta em defesa do Meio-Ambiente, da Criação!!!

ENSAIOS SOBRE A CRIAÇÃO
Luiz Eduardo Caminha


ENSAIO 1

“No princípio eram as trevas. A Terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam os abismos” (Gênesis 1, 1-2)

... E Deus se fez poeta e se pôs a pensar e agir!


No céu, os luzeiros,
Estrelas cintilantes,
Para pontilhar,
Como contas de diamantes,
O ébano manto de brigadeiro.

O Sol, calidamente,
Fará suas jornadas,
Para aquecer,
Com fagulhas doiradas,
Os seres caminhantes.

Águas para saciar a sede,
Sejam criadas,
Para vingar a criação,
Animais terrenos, das águas,
Toda a Terra, todo o verde.

O ar, de límpido azul,
Imaculado,
Píncaros, montanhas,
Florestas, mananciais.

Nas matas, o som da bicharada,
O canto dos pássaros,
Lembrarão uma sinfonia,
De anjos celestiais.

E pensou Deus: O berço,
Onde deitarei o ápice da Criação,
Está pronto. Falta preenchê-lo!!!
Falta-lhe minha obra prima,
O sumo fruto de minhas mãos,
Escultura de meus sentimentos,
Minha imagem e semelhança,
Reflexo de meu ser.

Formosa obra que guarde,
Na razão,
A fonte do equilíbrio,
Um ser tão perfeito
Quanto Eu que o crio.

E faço deitar neste berço,
A síntese de minha obra,
Um menino, um homem,
Minha Imagem,
Minha semelhança!!!

A Criação está pronta,
Deixemos que o Homem a cuide,
Zele por ela e... dela usufrua!!!


“...Tendo Deus terminado a obra que tinha feito, descansou de seu trabalho”.” (Gênesis 2, 2).


ENSAIO 2

“...e Deus viu que tudo isto era bom... Deus criou o homem, à sua imagem. Imagem de Deus o criou. Homem e mulher os criou” (Gênesis 1, 25; 27)

...Será que Deus se enganou?

Sou
A antítese do paradoxo
A lógica do irracional.
A água que passa o moinho,
E a gota que se fez oceano.
A corporificação do etéreo,
O éter da matéria,
E o pouco, quase nada,
Que sobra de concreto,
No abstrato.

O resultado adolescente da marginalidade
E a esperança do menino travesso.
A paz alvissareira da guerra
E o pipocar sanguinário da metralha.
Sou ensejo,desejo, inveja,
Do ódio dos amargurados.
Sou a luz numa caverna
E a solidão do ébano,
Nas noites sem luar.

Sou,
O início do fim,
E o epílogo do começo.
Sou,
O erro da bala perdida,
O alvo certo do tiro errado,

Eu sou produto desta sociedade,
Que prefere o sangue
Fora das veias, nas calçadas,
As ruas tingidas
De feridas pútridas,
A carniça fétida,
Que o abutre abandonou.

Eu sou o reflexo
De uma humanidade
Pérola prima do Pai eterno,
Riscada, toldada,
Amassada, pisoteada,
Desfigurada, desalmada.

Eu sou o Homem,
O bicho homem,
Criatura errática,
O erro
Que contrasta o belo,
A magnífica Criação.

Aliás, talvez eu seja,
O engano do Criador!!!


ENSAIO 3

“Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno? Eu vos envio profetas, sábios e doutores. Matareis e crucificareis uns e açoitareis outros... Em verdade vos digo: todos estes crimes pesam sobre esta raça” (Mateus 23, 33-36)

E Deus falou ao homem,..
Por sábios e profetas,
Tentou, em vão,
Corrigir seu rumo,
Aprumar-lhe a mente,
Fazê-lo recompor a Criação,
Da qual lhe confiara ser,
O Senhor

.... E o homem prosseguiu,
Sua errática caminhada,
Trilhando veredas de incertezas,
Descaminhos da sedução,
Sendas da cobiça,
Da inveja, ganância,
Da perdição!!!


ENSAIO 4

“E o Anjo Gabriel disse a Maria: o ente santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus” (Lucas 1,35)

E Deus perdoou..
Não! Eu não posso deixar
Minha obra abandonada.
Salvá-los-ei,
Uma, duas,
Mais uma vez,
A última por certo:
Enviarei Meu Filho!!!

...E veio o Filho!
Que sequer ousou,
Tirar um único traço da Lei,...

E ensinou:
O caminho da volta é um só!
AMOR! Amar o Pai,
O Criador,
Amar o próximo,
A Criação...


ENSAIO 5

“Deus, o Senhor, viu que a maldade dos homens era grande na terra, e que todos os pensamentos do seu coração estavam continuamente voltados para o mal” (Gênesis 6,5)

E o Homem O matou!!! ... E maculou a Criação!

Não parou aí!
Agora se dispõe,
Matar a Criação.

Irmãos, animais,
Florestas,
Mares e águas,
Planeta Terra, Gaia,
Uni-vos, todos!

Ele está aí.
A todo tempo!
O tempo todo!
E quer matar,
Destruir,
Queimar,
Dilapidar,
Poluir,
Assombrar!!!


ENSAIO FINAL

“Porque a quem muito se deu, muito se exigirá. Quanto mais se confiar a alguém, dele mais se há de exigir” (Lucas 12, 48)

E continua ensandecido,
Nesta cruzada insana,
Matando, ultrajando,
Humilhando,
Plantando guerras,
DESAMOR!!!
Destruindo a Criação!
Opondo-se ao CRIADOR!

Até quando, oh! Senhor!
Até onde irá o homem
Para merecer,
De novo, Teu perdão?
Até o apocalipse?
Holocausto do planeta?

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

MENSAGEM

Salvem o Planeta
por Luiz Eduardo Caminha

No livro do Gênesis, após concluída a Criação, salta aos olhos uma missão e um compromisso sério para o homem e a raça humana: “Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra. E Deus disse: Eu vos dou todas as ervas que dão sementes e que estão sobre toda a superfície da terra; e todas as árvores, que dão fruto e que dão sementes: isto será vosso alimento” (Gênesis 1, 28-29). Esta era a missão.

Há, entretanto, um detalhe que precede a criação do próprio homem: “E Deus viu que tudo isto era bom” (Gênesis 1, 25). Este era o compromisso.

Ao conferir esta missão ao homem, Deus propiciou-lhe um lugar onde emanava leite e mel, um éden, um paraíso, como se estivesse a preparar um ambiente perfeito, equilibrado, para assentar a obra máxima de sua criação, feita à sua imagem e semelhança, o homem.

Mas o compromisso era um recado direto, objetivo: tudo isto, toda a terra eu criei para o vosso deleite, para o vosso sustento, para vossa sobrevivência. É preciso, pois, conservá-la, para que continue dando fruto, para que o equilíbrio seja completo, para que isto continue sendo bom.

O Homem, entretanto, nada entendeu e, desde os remotos tempos jamais se preocupou com o compromisso que estava embutido naquele mandado. Egoísta, prepotente, arrogante, se adonou de tudo sem medir qualquer conseqüência sobre os danos que viesse a causar àquele Paraíso criado. Foi em frente nas suas atrocidades. Caçou por caçar, matou para se divertir, rasgou o ventre da terra mãe para expor-lhe as entranhas, como se isto nunca pudesse chegar a um fim que prejudicasse a si próprio. E a sensação era esta mesma! A Terra era tão soberba que seus recursos pareciam infindáveis, inesgotáveis.

E o homem não parou! Foram inúmeros os avisos, notadamente depois da revolução industrial: as riquezas deste planeta não são infinitas. Mas o soberbo animal, na sua quase irracionalidade, continuou seu caminho de destruição, seu rastro de insanidade como se quisesse vingar-se daquele legado.

Hoje, em pleno nascedouro de um novo século, a Terra começa a esboçar seus sinais de cansaço, de esgotamento. O aviso é outro, muito mais contundente, sinistro: a Terra está morrendo!

Será que haverá ainda como reverter? Pergunta-se uma parte da humanidade estupefata com tamanha destruição. Efeito estufa, buracos negros, queimadas, poluição das fontes de água doce, emissão estarrecedora de gás carbônico, destruição das matas e de todo o seu sistema ecológico, espécies que desaparecem, pela ação nefasta do homem e pela ganância da sociedade. O resultado disto tudo é óbvio: as mudanças climáticas, os fenômenos naturais, verdadeiras hecatombes, jamais vistos com tal intensidade e freqüência, poluição, seca, geleiras, outrora perenes, que se derretem para não mais voltar e outros que tais.

É preciso fazer algo. Urge que se faça! A mãe terra não pode esperar mais. Não agüenta mais, sozinha, os golpes que lhe desferem. A Terra está sangrando e precisa da solidariedade dos homens, daqueles com consciência, que possam unir-se pelas mãos, pela voz, pelos atos e partirem para uma grande e imemorial batalha – talvez a última. Estandarte na mão, vamos à guerra! Não uma guerra de armas. Uma guerra onde a Paz, acima de tudo, seja a principal bandeira e a Esperança o nosso cajado.

Forças começam a se mexer. Discuta com seus amigos. Passe e-mails. Mande mensagens e... corra para a Praça, para as ruas de sua cidade e comece pelo mais humildes dos gestos: Peça perdão a Mãe Terra! Peça perdão ao Criador pelo mal que fizemos à toda a Criação.

Eu, você, somos apenas uma gotinha neste oceano todo de destruição. Neste incêndio feroz a que submeteram a natureza. Mas somos, cada um, uma gota. Como dizia Tereza de Calcutá “Sim, eu sou uma gota no oceano, mas ele seria menor sem mim”. Esta batalha não tem credo, raça, não tem ricos ou pobres. É a batalha da humanidade.

Revigoremos o mandado do Criador e salvemos o berço das criaturas. Sem ele, ou com ele destruído, não sobreviveremos!!!

Amor, Paz e Bem, que não custa nada a ninguém!

Luiz Eduardo Caminha.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

ENSAIOS 2...

Queridos amigos e irmãos,

aí vai mais um de meus ensaios dando continuidade àquilo que propús no anterior. Talvez alguns encarem como uma provocação, afinal, da maneira como vão as coisas, está cada vez mais fácil admitir que o bicho homem tem feito de tudo para se desfigurar perante Deus e perante seus semelhantes.

Que Deus os abençoe sempre,

Caminha

O SOPRO DA DIFERENÇA
Por Luiz Eduardo Caminha

Continuo a falar sobre o problema das nuances lingüísticas, especialmente da dificuldade que têm as traduções de serem fiéis quando o termo ou a expressão a ser traduzida traz em sua essência um sentimento. Já me referi ao intraduzível “saudade”, de nossa língua, sem similar em outra qualquer. Em outro exemplo citei a tradução da passagem bíblica em que Jesus Cristo cobra de Pedro uma profissão de amor. leia aqui

Quero propor, agora, uma discussão sobre o termo ALMA que, a meu ver, é paupérrimo ao tentar propor o seu verdadeiro significado. ALMA vem do latim “anima”, que quer dizer “vida animada”. Mas o que vem a ser isto? O termo vem dos antigos escritos bíblicos, mais precisamente do Gênesis, quando descreve a criação do homem: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, do barro, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gênesis 2,7).

Aqui aparece um componente que enriquece a origem do vocábulo que o nosso português traduz por alma. Mais uma vez, o esforço do tradutor acabou por não expressar a essência do termo. Na versão grega da Bíblia – que precede a vulgata latina – há uma confusão ao se tentar tornar claro o gesto do Criador: “o sopro, o fôlego da vida”. Os gregos já faziam uma distinção entre o corpo e a “psique”, o “ser psíquico”, que dominava o corpo, a “id” ou a mente. Ao tentar “cristianizar” a expressão o tradutor da vulgata utilizou-se do vocábulo “anima” (latino) que expressava uma diferenciação do homem (um animal animado) dos outros animais (inanimados).

Quanto rolo, não? Talvez fosse o momento de fazermos um parêntese para vermos aonde estamos pisando.

Nos seus primeiros séculos, a Igreja serviu-se sobretudo da língua grega. Foi nesta língua que todo o Novo Testamento foi redigido, incluindo a Carta aos Romanos de São Paulo, bem como muitos escritos cristãos de séculos seguintes.

No século IV a Igreja já está consolidada em Roma e em todo o Império Romano e é então que São Jerônimo traduz, pelo menos, o Antigo Testamento para o latim e revê a Vetus Latina. A Vulgata, originária deste trabalho, foi produzida para ser mais exata e mais fácil de compreender do que suas predecessoras.

Foi a primeira - e por séculos a única - versão da Bíblia para o latim e apresentou o Velho Testamento traduzido diretamente do hebraico, mas não sem deixar alguns vícios lingüísticos da tradução grega conhecida como Septuaginta.

A pedido do Papa Dâmaso I, São Jerônimo teve a liberdade de adaptar o texto ao latim vulgar e retirou do conjunto os livros considerados apócrifos. A esta versão deu-se o nome de Vulgata que foi usada pela Igreja Católica Romana durante muitos séculos, e ainda hoje é fonte para diversas traduções. Com o Concílio Vaticano II foi procedida uma revisão geral da Vulgata e o resultado disto foi a Nova Vulgata que serve de base para as bíblias modernas.

Feito este parêntese, voltemos ao âmago deste artigo.

Fica patente, na versão grega – traduzida do hebraico – o sentido daquele “sopro” que transformou o homem em ser vivente. Melhor dizendo: o homem, um dos animais da Criação, só se diferencia dos outros e é feito imagem e semelhança de Deus, no exato momento em que o próprio Criador sopra-lhe – pelas narinas – aquilo que viria a diferenciá-lo, torná-lo impar: a vida de Deus inserida num animal, no homem, em nós. É aí que somos “animados” como seres viventes, seres que possuem, dentro de si, a essência divina.

É isto também que nos torna “irmãos” porque todos, sem exceção, recebem este “componente genético” - o gen do Criador - se é que assim posso comparar.
É isto que nos torna únicos: este GEN que recebemos diretamente de Deus. Este é o sopro da diferença. Algo só concedido a nós como DOM GRATUITO de Deus. Portanto, não se trata de diferenciar o racional (nós, seres humanos) do irracional (os animais e vegetais). Até porque, não poucas vezes, somos nós os irracionais.

Agora, então, cabe-nos questionar: Quando invejamos, desejamos mal a um outro ser, atentamos contra a natureza, promovemos a violência, quando disputamos espaços e calcamos os outros como se fossem trampolins para nossas vaidades, nossas cobiças, nossas vantagens, nossos egoísmos, estamos sendo “diferentes”? Estamos sendo expressão da imagem que herdamos de Deus? Seguramente que não!

Ora, Deus é bondade, é Amor, é Equilíbrio, é Justiça, é Paz. Só quando trilhamos estes caminhos, estamos impondo aos outros esta diferença. Estamos sendo sua imagem. Sua semelhança. E, sem dúvida, o foco desta nossa maneira de ser é o próximo, o que convive conosco, primeiro na nossa família, depois entre os parentes, os amigos, a comunidade, o mundo que nos rodeia, inclusive a natureza, sim, porque não? Ela é a expressão de toda a obra, da qual somos os seres privilegiados, diferenciados.

Sempre que atentarmos contra um destes vetores estamos desfigurando a IMAGEM DE DEUS EM NÓS! A ALMA, como quer o português. Pior, estamos nos equiparando aos outros tantos animais que, embora obra do Criador, não receberam por parte d’Ele a atenção que nos foi concedida naquele “sopro da diferença”. E quanto não custou a Deus incluir na Criação esta criatura que somos nós? Difícil avaliar? Talvez não. Valeu a vida de Jesus Cristo, o Filho único de Deus. Será que alguém estaria disposto a entregar a vida de algum de seus filhos, mesmo que não o único, por qualquer ser humano? Pois é o que valemos. Apenas porque Deus nos escolheu para sermos a sua imagem e semelhança na Criação. É pouco? Talvez, para uns, não passe de um sopro!

Amor, Paz e Bem que não custa nada a ninguém!

Luiz Eduardo Caminha